sexta-feira, 19 de julho de 2013

Significados que o ‘poder’ estabelece


Antes de abordar a questão da codificação de textos sagrados, quero tratar de outro processo de, digamos, ‘codificação’, só que neste caso, uma ‘codificação’ que fala em nome do ‘sentido das palavras’ a partir do olhar dos poderosos.

No meu entendimento, aqui se dá um processo ao reverso: não há um sentido ‘abaixo’ da palavra aparente, mas há a adesão de um novo sentido ‘sobre’ a palavra já existente. Não se cria uma nova palavra: se adiciona à palavra uma nova ‘leitura’ ou significado. Esse processo se chama, quase sempre, ‘dominação’.

O romancista e poeta inglês Charles Lutwidge Dogson, mais conhecido como Lewis Carroll e como autor de ‘Alice no País das Maravilhas’, publicou em 1871 uma continuação desta obra chamada ‘Through the Looking-Glass and What Alice Found There’, traduzida no Brasil como Alice Através do Espelho e O Que Ela Encontrou Por Lá’ ou ainda ‘Alice No País Dos Espelhos. Humpty Dumpty, um dos personagens mais conhecidos dessa obra e que mantem longos diálogos com Alice, é um ovo antropomórfico, filólogo e especialista em questões linguísticas, para quem as palavras significam o que ele quiser. Há um interessante diálogo entre ele e Alice:

Não sei o que você quer dizer com ‘glória’”, Alice disse.
Humpty Dumpty sorriu com desdém: “É óbvio que não sabe... até que eu lhe diga. Eu quis dizer: ‘Há um belo argumento infalível para você’!”.
Mas ‘glória’ não significa ‘um belo argumento infalível’”, objetou Alice.
Quando eu uso uma palavra”, disse Humpty Dumpty com certo desprezo, “ela significa o que eu quiser que ela signifique... Nem mais nem menos”.
A questão é”, disse Alice,se você pode fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes”.
A questão é”, retrucou Humpty Dumpty, “quem é que manda... E eis tudo”.

Toda narrativa contém a ‘assinatura’ subjetiva do narrador, de tal forma que um clássico exemplo disso está na afirmação (corretíssima) de que a história é escrita pelos vitoriosos ou, mais precisamente, pelos ‘sobreviventes’. Às vezes, esse reconhecimento exige extremo esforço para diferenciar o que é história e o que é ‘estória’, apesar de se saber que toda ação narrativa humana, ficcional ou não, vai acontecer num contexto determinado e específico de espaço e tempo. Sabendo que a percepção é seletiva e que o mesmo acontece com a ênfase que será colocada em alguns aspectos da narrativa que relata o percebido, as palavras não são nunca ‘neutras’. O que no fundo retoma a velha questão: afinal, o que é mesmo a ‘verdade’?

Mesmo sem o condão de uma resposta, é indispensável situar qualquer narrativa no seu contexto e tentar identificar as correlações das forças políticas históricas dos envolvidos nas narrativas. O que, seguramente, não parece ser muito fácil.

Um exemplo muito presente (invariavelmente não identificado como tal) está explícito no nascedouro da história conhecida e registrada de nosso país. Desde a nossa infância, a escola informa que o Brasil foi ‘descoberto’ pelos portugueses, posto ser este o registro oficial. A narrativa da dominação é tão sutil que ela nem se constrangeu ao afirmar que quando os portugueses chegaram a estas terras, além de identificar a natureza exuberante, elas já eram habitadas. A história do povo brasileiro, de fato, não começou com a chegada dos europeus, pois teve uma etapa inicial constituída pela vida e atividades dos primeiros ocupantes do território brasileiro, mais adiante denominados ‘índios’. Em acréscimo, a narrativa da dominação ensinada até hoje dá por implícito não contar como ‘gente’ aqueles seres ‘pardos, todos nus,... pintados de preto e vermelho’, como informou o escrivão da frota de Cabral na carta a El-Rei D. Manoel onde relata o achamento desta vossa terra nova’.

Esses dois significados foram aprendidos por todos nós: que a nova terra foi ‘achada’ e quem ali habitava não contava como ‘gente’.

O Brasil, então, foi ‘descoberto’, assim como se ‘acha’ um objeto ao caminhar pelas ruas, talvez uma carteira com dinheiro, talvez até com a foto e o nome do dono, mas como ‘achado não é roubado’ o objeto passa a ser de quem achou, à semelhança do velho ditado lusitano que diz que ‘pão achado não tem dono’? Estas terras eram habitadas, estavam ocupadas: como assim, foram ‘achadas’? De onde a noção de que haviam sido ‘perdidas’?

Segundo Houaiss, uma das acepções de ‘descobrir’ é ‘dar a conhecer (alguma coisa) até então ignorada’. ‘Descobrimento’ é então o ‘ato, processo ou efeito de descobrir (algo), tornando patente o que estava velado ou revelando (alguma coisa) de que não se tinha conhecimento; descoberta’.

Textos acadêmicos costumam designar como a ‘era dos descobrimentos’ ou ‘das grandes navegações’ o período em que os europeus desenvolveram intensa exploração do planeta em busca de novas rotas comerciais. Um período em que “os europeus encontraram e documentaram povos e terras nunca antes vistas”. Nunca antes ‘vistas’ por quem? Se a Europa ‘desconhecesse’, as terras não ‘existiam’? Portugal talvez ignorasse o Brasil, mas já havia habitantes que tinham ‘descoberto’ estas terras antes.

O que Humpty Dumpty chamaria de ‘descobrimento’ eu prefiro chamar de invasão, algo que se define como ‘ato de penetrar em um espaço, sem autorização, ocupando-o pela força’.

Na concepção marxista, o que chamamos de ideologia se caracteriza por um amplo sistema de ideias que encobre a realidade, ocultando ou distorcendo as relações de poder e dominação, bem como as tensões resultantes dessas assimetrias, no sentido de beneficiar os interesses das classes sociais dominantes.

A ideologia nos apresenta o óbvio, o que ‘sempre foi assim’, uma realidade que não pode, não deve, nem tem porque ser mudada. Com a repetição sistemática de uma ideia, ou de uma representação ou de um significado das coisas, será sempre mais difícil perceber os paradigmas do ‘óbvio’ e entender as crenças que estão incrustadas em nossas mentes. Assim se constitui o senso comum, essa compreensão superficial da realidade, que tem dificuldade em ir além da ‘aparência’, gerador do hábito de realizar um comportamento até a tradição que, quando instalada, passa de geração para geração sem razão crítica. Produto da ideologia, o senso comum é seu mais fiel reprodutor, alienando a consciência humana e mascarando a realidade de acordo com os interesses daqueles que dominam a sociedade.

Nessa mesma linha, a filósofa e professora Marilena Chauí define ideologia como ‘um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (ideias e valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer. Ela é, portanto, um corpo explicativo, de representações e práticas (normas, regras e preceitos) de caráter prescritivo, normativo, regulador, cuja função é dar aos membros de uma sociedade dividida em classes uma explicação racional para as diferenças sociais, políticas e culturais, sem atribuir tais diferenças à divisão da sociedade em classes’.

Em outras palavras, é a ideologia que garante a dominação, é ela que perpetua a definição de ‘quem é que manda’, inclusive revestindo as palavras existentes com novas representações ou um novo sentido, ou com o sentido que melhor lhe convém.

Uma situação semelhante a tais circunstâncias ocorreu quando da redação de alguns dos textos sagrados dos judeus exigindo sua codificação e permitindo uma leitura ao senso comum, e outra aos que têm ‘ouvidos para ouvir’.

Nenhum comentário:

Postar um comentário