Antes de abordar a questão da codificação de textos sagrados, quero tratar de outro processo de, digamos, ‘codificação’, só que neste caso, uma ‘codificação’ que fala em nome do ‘sentido das palavras’ a partir do olhar dos poderosos.
No meu entendimento, aqui se dá um processo ao reverso: não há um sentido
‘abaixo’ da palavra aparente, mas há a adesão de um novo sentido ‘sobre’ a
palavra já existente. Não se cria uma nova palavra: se adiciona à palavra uma
nova ‘leitura’ ou significado. Esse processo se chama, quase sempre, ‘dominação’.
O romancista e poeta inglês Charles Lutwidge Dogson, mais conhecido como
Lewis Carroll e como autor de ‘Alice no
País das Maravilhas’, publicou em 1871 uma continuação desta obra chamada ‘Through the Looking-Glass and What Alice
Found There’, traduzida no Brasil como ‘Alice Através do Espelho e O Que Ela Encontrou Por Lá’ ou ainda
‘Alice No País Dos Espelhos’. Humpty
Dumpty, um dos personagens mais conhecidos dessa obra e que mantem longos
diálogos com Alice, é um ovo antropomórfico, filólogo e especialista em
questões linguísticas, para quem as palavras significam o que ele quiser. Há um
interessante diálogo entre ele e Alice:
“Não sei o que você quer
dizer com ‘glória’”, Alice disse.
Humpty Dumpty sorriu com desdém: “É óbvio que não sabe... até que eu lhe diga. Eu quis dizer: ‘Há um belo
argumento infalível para você’!”.“Mas ‘glória’ não significa ‘um belo argumento infalível’”, objetou Alice.
“Quando eu uso uma palavra”, disse Humpty Dumpty com certo desprezo, “ela significa o que eu quiser que ela signifique... Nem mais nem menos”.
“A questão é”, disse Alice, “se você pode fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes”.
“A questão é”, retrucou Humpty Dumpty, “quem é que manda... E eis tudo”.
Toda narrativa contém a ‘assinatura’ subjetiva do
narrador, de tal forma que um clássico exemplo disso está na afirmação
(corretíssima) de que a história é escrita pelos vitoriosos ou, mais
precisamente, pelos ‘sobreviventes’. Às vezes, esse reconhecimento exige
extremo esforço para diferenciar o que é história e o que é ‘estória’, apesar
de se saber que toda ação narrativa humana, ficcional ou não, vai acontecer num
contexto determinado e específico de espaço e tempo. Sabendo que a percepção é
seletiva e que o mesmo acontece com a ênfase que será colocada em alguns
aspectos da narrativa que relata o percebido, as palavras não são nunca
‘neutras’. O que no fundo retoma a velha questão: afinal, o que é mesmo a ‘verdade’?
Mesmo sem o condão de uma resposta, é indispensável
situar qualquer narrativa no seu contexto e tentar identificar as correlações das
forças políticas históricas dos envolvidos nas narrativas. O que, seguramente,
não parece ser muito fácil.
Um exemplo muito presente (invariavelmente não identificado como tal) está
explícito no nascedouro da história conhecida e registrada de nosso país. Desde
a nossa infância, a escola informa que o Brasil foi ‘descoberto’ pelos
portugueses, posto ser este o registro oficial. A narrativa da dominação é tão
sutil que ela nem se constrangeu ao afirmar que quando os portugueses chegaram
a estas terras, além de identificar a natureza exuberante, elas já eram
habitadas. A história do povo brasileiro, de fato, não começou com a
chegada dos europeus, pois teve uma etapa inicial
constituída pela vida e atividades dos primeiros ocupantes do território
brasileiro, mais adiante denominados ‘índios’. Em acréscimo, a narrativa da dominação ensinada
até hoje dá por implícito não contar como ‘gente’ aqueles seres ‘pardos, todos nus,... pintados de preto e
vermelho’, como informou o
escrivão da frota de Cabral na carta a El-Rei D. Manoel onde relata o ‘achamento desta vossa terra nova’.
Esses dois significados foram aprendidos por todos nós: que a nova terra
foi ‘achada’ e quem ali habitava não contava como ‘gente’.
O Brasil, então, foi ‘descoberto’, assim como se ‘acha’ um objeto ao
caminhar pelas ruas, talvez uma carteira com dinheiro, talvez até com a foto e
o nome do dono, mas como ‘achado não é roubado’ o objeto passa a ser de quem achou,
à semelhança do velho ditado lusitano que diz que ‘pão achado não tem dono’?
Estas terras eram habitadas, estavam ocupadas: como assim, foram ‘achadas’? De
onde a noção de que haviam sido ‘perdidas’?
Segundo Houaiss, uma das acepções
de ‘descobrir’ é ‘dar a conhecer (alguma coisa) até então ignorada’.
‘Descobrimento’ é então o ‘ato, processo ou efeito de
descobrir (algo), tornando patente o que estava velado ou revelando (alguma
coisa) de que não se tinha conhecimento; descoberta’.
Textos acadêmicos costumam designar
como a ‘era dos descobrimentos’ ou ‘das grandes navegações’ o período em que os
europeus desenvolveram intensa exploração do planeta em busca de novas rotas
comerciais. Um período em que “os europeus encontraram e documentaram
povos e terras nunca antes vistas”. Nunca antes ‘vistas’ por quem? Se a Europa ‘desconhecesse’, as terras
não ‘existiam’? Portugal talvez ignorasse o Brasil, mas já havia habitantes que
tinham ‘descoberto’ estas terras antes.
O que Humpty Dumpty chamaria de ‘descobrimento’ eu prefiro chamar de
invasão, algo que se define como ‘ato de penetrar em um espaço, sem
autorização, ocupando-o pela força’.
Na concepção marxista, o que chamamos de ideologia se caracteriza por um
amplo sistema de ideias que encobre a realidade, ocultando ou distorcendo as
relações de poder e dominação, bem como as tensões resultantes dessas
assimetrias, no sentido de beneficiar os interesses das classes
sociais dominantes.
A ideologia nos
apresenta o óbvio, o que ‘sempre foi assim’, uma realidade que não pode, não
deve, nem tem porque ser mudada. Com a repetição sistemática de uma ideia, ou
de uma representação ou de um significado das coisas, será sempre mais
difícil perceber os paradigmas do ‘óbvio’ e entender as crenças que estão
incrustadas em nossas mentes. Assim se constitui o senso comum, essa
compreensão superficial da realidade, que tem dificuldade em ir além da
‘aparência’, gerador do hábito de realizar um
comportamento até a tradição que, quando instalada, passa de geração para
geração sem razão crítica. Produto da ideologia, o senso comum é seu mais fiel
reprodutor, alienando a consciência humana e mascarando a realidade de acordo
com os interesses daqueles que dominam a sociedade.
Nessa mesma linha, a filósofa e professora Marilena Chauí define ideologia
como ‘um conjunto lógico,
sistemático e coerente de representações (ideias e valores) e de normas ou
regras (de conduta) que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que
devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar,
o que devem sentir e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer.
Ela é, portanto, um corpo explicativo, de representações e práticas (normas,
regras e preceitos) de caráter prescritivo, normativo, regulador, cuja função é
dar aos membros de uma sociedade dividida em classes uma explicação racional
para as diferenças sociais, políticas e culturais, sem atribuir tais diferenças
à divisão da sociedade em classes’.
Em outras palavras, é a ideologia
que garante a dominação, é ela que perpetua a definição de ‘quem é que manda’, inclusive
revestindo as palavras existentes
com novas representações ou um novo sentido, ou com o sentido que melhor lhe
convém.
Uma situação semelhante a tais circunstâncias ocorreu quando da redação de
alguns dos textos sagrados dos judeus exigindo sua codificação e permitindo uma
leitura ao senso comum, e outra aos que têm ‘ouvidos para ouvir’.

Nenhum comentário:
Postar um comentário