terça-feira, 16 de julho de 2013

As revelações dos documentos de Qumran




A técnica ‘pesher’ é uma espécie de exegese, uma interpretação no sentido de identificar o conhecimento subjacente em um texto sagrado, cuja redação o protege de eventual profanação. Também aqui o problema das interpretações está associado à possível ausência de neutralidade, da mesma forma que ocorre com o que denominamos ‘verdade’ científica. Diante de um problema, os humanos fazem perguntas, e estas sempre contêm uma resposta provisória às perguntas realizadas. A parcialidade ou falta de distanciamento subjetivo é indissociável da ação humana: a redução de seu impacto depende da nossa capacidade de reconhecer e identificar sua presença.

Diante das possibilidades de uma ‘leitura’ subjetiva, para se entender os ‘pesharim’ ou o conjunto dos comentários que fazem a revelação dos sentidos ocultos, utiliza-se uma diligente e rigorosa metodologia que implica em trabalhar o entendimento particular de uma palavra aplicando-o universalmente sempre que essa mesma palavra aparecer em outros documentos similares. Foi assim que, a partir dos documentos encontrados em Qumran, diversos autores realizaram a leitura dos livros que compõem a Bíblia.

Os ‘rolos’ ou ‘manuscritos’ do Mar Morto são uma coleção de centenas de textos e fragmentos de textos antiquíssimos encontrados casualmente por pastores de cabras em cavernas de Qumran, nas proximidades do Mar Morto, no fim da década de 1940 e durante a década de 1950.

Originalmente, estes textos foram compilados por uma das três principais seitas ou grupos político-religiosos dos judeus, conhecida como a dos ‘essênios’, os quais viveram em Qumran do século II a.C. até aproximadamente o ano 70 d.C. As outras duas seitas eram as dos ‘saduceus’, formado por judeus da estirpe sacerdotal dominante, originalmente descendentes de Zadoque, sumo sacerdote ao tempo do rei David, e os ‘fariseus’, devotos dogmáticos que se dedicavam ao estudo da Torá escrita e oral, intimamente ligados à liderança nas sinagogas, ao culto e às escolas, sendo precursores do judaísmo rabínico. Em meados do século II a.C., resultado de uma derrota política, os essênios retiraram-se para o deserto de Qumran ou deserto da Judéia, vivendo em comunidade e em estrito cumprimento da lei de Moisés e dos Profetas.

Na margem noroeste do Mar Morto, em Israel, a cerca de 10 km ao sul de Jericó e 20 km a leste de Jerusalém, encontra-se um sítio arqueológico hoje formado por um complexo de ruínas conhecido como Khirbet Qumran, ‘ruína da mancha cinzenta’.

Durante a primeira guerra judaico-romana também chamada de ‘Grande Revolta Judaica’, iniciada em 66 d.C. na Judéia e encerrada em 70 d.C., essa comunidade foi obrigada a abandonar Qumran. Seus membros se dispersaram por vários locais, incluindo a fortaleza de Massada, palácio fortificado que havia sido construído pelo rei Herodes, o Grande, no ano 30 a. C. num monte às encostas do Mar Morto e que resultou como último reduto judaico após a destruição de Jerusalém e do Segundo Templo pelos romanos, tomado em 73 d.C.

Os pormenores, obviamente, não são conhecidos, mas crê-se que, durante esta época conturbada, alguns membros da comunidade resolveram esconder os textos sagrados mais preciosos da Lei pela qual se regiam em grutas situadas em penhascos próximos. Provavelmente, nenhum desses homens sobreviveu às investidas romanas e, assim, o segredo da localização dos textos morreu com eles até sua descoberta em 1947, quase 2000 anos depois.

Porções de praticamente toda a Bíblia foram encontradas entre os ‘rolos’ ou ‘manuscritos’ do Mar Morto, além de textos considerados ‘apócrifos’, ou com conteúdo oculto de uso restrito a iniciados, e ainda livros que tratam sobre as regras da própria seita e que permitem um entendimento mais preciso de alguns fatos e rituais.

Aqui é interessante lembrar que o termo ‘apócrifo’ sofreu uma severa alteração política de seu significado, passando a ser aplicado a um texto ou obra que não apresenta autenticidade, ou seja, que é ‘falso’. No entanto, etimologicamente, o termo ‘apócrifo’ vem do latim tardio ‘apocryphus’ ou ‘algo secreto e desaprovado para leitura pública’, por sua vez derivado do grego ‘apokryphos’, que significa ‘coisa escondida para os de fora’, de ‘apo’, ‘para fora’ e ‘kryptein’, ‘escondido’, significando assim ‘algo secreto ou vedado às vistas profanas’.

E nesse sentido original o termo foi aplicado a alguns textos, quando São Jerônimo traduziu a Bíblia do grego antigo e do hebraico para o latim, no final do século IV e início do século V, na versão conhecida como ‘Vulgata’, forma latina abreviada de ‘vulgata editio’ ou ‘vulgata versio’ ou ‘vulgata lectio’, respectivamente ‘edição, tradução ou leitura de divulgação popular ou para o povo’ - a versão mais difundida (ou mais aceita como autêntica). Para ‘não iniciados’, alguns textos deveriam ser vedados, e assim foram subtraídos com tal denominação. Ao longo do tempo e por variadas motivações políticas da elite da Igreja, tais textos passaram sucessivamente a ser considerados ‘falsos’, e nessa condição permaneceram excluídos.

Assim a ‘Vulgata’ foi a primeira (e por séculos a única) versão da Bíblia disponível, na qual São Jerônimo verteu o Velho Testamento diretamente do hebraico e não da tradução grega conhecida como Septuaginta, e para o Novo Testamento, revisou e selecionou textos. Sua versão original definitiva foi ratificada no Concílio de Trento, em 1546, e sofreu uma revisão em 1979, sob o papado de João Paulo II, sendo denominada ‘Nova Vulgata’, atual Bíblia oficial da Igreja.

Agora nos cabe voltar à noção ‘pesher’ e porque falamos disto aqui: os Manuscritos do Mar Morto são, com certeza, a versão mais antiga do texto bíblico, datando de muitos anos antes do que o texto original da Bíblia Hebraica usada pelos judeus ainda hoje. Por serem tão preciosos, atualmente estão guardados no Santuário do Livro do Museu de Israel, em Jerusalém. Sua descoberta e decifração permitiu determinar algumas das regras seguidas pela comunidade essênia de Qumran nos ‘pesharim’, uma vez que alguns rolos trazem os textos e sua interpretação, revelando ao mesmo tempo o sentido literal aparente e o significado escondido nos mesmos. Resulta que alguns trabalhos revelam uma nova leitura dos textos sagrados, permitindo e ensejando uma compreensão sobre os fatos narrados que leva o leitor, obrigatoriamente, num outro sentido. Tal como em seguida veremos.

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