A técnica ‘pesher’ é uma espécie de exegese, uma interpretação no sentido de
identificar o conhecimento subjacente em um texto sagrado, cuja redação o
protege de eventual profanação. Também aqui o problema das interpretações está
associado à possível ausência de neutralidade, da mesma forma que ocorre com o
que denominamos ‘verdade’ científica. Diante de um problema, os humanos fazem
perguntas, e estas sempre contêm uma resposta provisória às perguntas realizadas.
A parcialidade ou falta de distanciamento subjetivo é indissociável da ação
humana: a redução de seu impacto depende da nossa capacidade de reconhecer e
identificar sua presença.
Diante das possibilidades de uma
‘leitura’ subjetiva, para se entender os ‘pesharim’
ou o conjunto dos comentários que fazem a revelação dos sentidos ocultos, utiliza-se
uma diligente e rigorosa metodologia que implica em trabalhar o entendimento
particular de uma palavra aplicando-o universalmente sempre que essa mesma
palavra aparecer em outros documentos similares. Foi assim que, a partir dos
documentos encontrados em Qumran, diversos autores realizaram a leitura dos livros
que compõem a Bíblia.
Os ‘rolos’ ou ‘manuscritos’ do Mar
Morto são uma coleção de centenas de textos e fragmentos de textos antiquíssimos
encontrados casualmente por pastores de cabras em cavernas de Qumran, nas
proximidades do Mar Morto, no fim da década de 1940 e durante a década de 1950.
Originalmente, estes textos foram compilados por uma das três principais seitas
ou grupos político-religiosos dos judeus, conhecida como a dos ‘essênios’, os
quais viveram em Qumran do século II a.C. até aproximadamente o ano 70 d.C. As
outras duas seitas eram as dos ‘saduceus’, formado por judeus da estirpe
sacerdotal dominante, originalmente descendentes de Zadoque, sumo sacerdote ao
tempo do rei David, e os ‘fariseus’, devotos dogmáticos que se dedicavam ao
estudo da Torá escrita e oral, intimamente ligados à liderança nas sinagogas,
ao culto e às escolas, sendo precursores do judaísmo rabínico. Em meados do
século II a.C., resultado de uma derrota política, os essênios retiraram-se
para o deserto de Qumran ou deserto da Judéia, vivendo em comunidade e em
estrito cumprimento da lei de Moisés e dos Profetas.
Na margem noroeste do Mar Morto,
em Israel, a cerca de 10 km ao sul de Jericó e 20 km a leste de Jerusalém,
encontra-se um sítio arqueológico hoje formado por um complexo de ruínas
conhecido como Khirbet Qumran, ‘ruína da mancha cinzenta’.
Durante a primeira
guerra judaico-romana também chamada de ‘Grande Revolta Judaica’, iniciada em
66 d.C. na Judéia e encerrada em 70 d.C., essa comunidade foi obrigada a
abandonar Qumran. Seus membros se dispersaram por vários locais, incluindo a
fortaleza de Massada, palácio fortificado que havia sido construído pelo rei
Herodes, o Grande, no ano 30 a. C. num monte às encostas do Mar Morto e que
resultou como último reduto judaico após a destruição de Jerusalém e do Segundo
Templo pelos romanos, tomado em 73 d.C.
Os pormenores, obviamente, não
são conhecidos, mas crê-se que, durante esta época conturbada, alguns membros
da comunidade resolveram esconder os textos sagrados mais preciosos da Lei pela
qual se regiam em grutas situadas em penhascos próximos. Provavelmente, nenhum
desses homens sobreviveu às investidas romanas e, assim, o segredo da
localização dos textos morreu com eles até sua descoberta em 1947, quase 2000
anos depois.
Porções de praticamente toda a Bíblia foram encontradas entre os ‘rolos’ ou
‘manuscritos’ do Mar Morto, além
de textos considerados ‘apócrifos’, ou com conteúdo oculto de uso restrito a
iniciados, e ainda livros que tratam sobre as regras da própria seita e que
permitem um entendimento mais preciso de alguns fatos e rituais.
Aqui é interessante lembrar que o termo ‘apócrifo’ sofreu uma severa
alteração política de seu significado, passando a ser aplicado a um texto ou
obra que
não apresenta autenticidade, ou seja, que é ‘falso’. No entanto, etimologicamente, o termo ‘apócrifo’ vem do latim tardio ‘apocryphus’ ou ‘algo secreto e desaprovado para leitura pública’,
por sua vez derivado do grego ‘apokryphos’, que significa ‘coisa escondida para os de fora’, de ‘apo’, ‘para fora’ e ‘kryptein’, ‘escondido’, significando
assim ‘algo secreto ou vedado às vistas
profanas’.
E nesse sentido original o termo
foi aplicado a alguns textos, quando São Jerônimo
traduziu a Bíblia do grego antigo e do hebraico para o latim, no final do
século IV e início do século V, na versão conhecida como ‘Vulgata’, forma latina abreviada de ‘vulgata editio’ ou ‘vulgata
versio’ ou ‘vulgata lectio’, respectivamente ‘edição, tradução ou
leitura de divulgação popular ou para o povo’ - a versão mais difundida (ou
mais aceita como autêntica). Para ‘não iniciados’, alguns textos deveriam ser
vedados, e assim foram subtraídos com tal denominação. Ao longo do tempo e por variadas
motivações políticas da elite da Igreja, tais textos passaram sucessivamente a
ser considerados ‘falsos’, e nessa condição permaneceram excluídos.
Assim a ‘Vulgata’ foi a primeira (e por séculos a única) versão da Bíblia
disponível, na qual São Jerônimo verteu o Velho Testamento diretamente do
hebraico e não da tradução grega conhecida como Septuaginta, e para o Novo
Testamento, revisou e selecionou textos. Sua versão original definitiva foi
ratificada no Concílio de Trento, em 1546, e sofreu uma revisão em 1979, sob o
papado de João Paulo II, sendo denominada ‘Nova
Vulgata’, atual Bíblia oficial da Igreja.
Agora nos cabe voltar à noção ‘pesher’
e porque falamos disto aqui: os Manuscritos do Mar Morto são, com certeza, a
versão mais antiga do texto bíblico, datando de muitos anos antes do que o
texto original da Bíblia Hebraica usada pelos judeus ainda hoje. Por serem tão
preciosos, atualmente estão guardados no Santuário do Livro do Museu de Israel,
em Jerusalém. Sua descoberta e decifração permitiu determinar algumas das
regras seguidas pela comunidade essênia de Qumran nos ‘pesharim’, uma vez que
alguns rolos trazem os textos e sua interpretação, revelando ao mesmo tempo o
sentido literal aparente e o significado escondido nos mesmos. Resulta que
alguns trabalhos revelam uma nova leitura dos textos sagrados, permitindo e
ensejando uma compreensão sobre os fatos narrados que leva o leitor,
obrigatoriamente, num outro sentido. Tal como em seguida veremos.

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