quinta-feira, 27 de junho de 2013

Cecilia


Tem um poema da Cecília Meireles (lindíssimo como todos os que ela fez) que mostra o quanto as palavras podem ficar ocas, vazias de sentido. Chama-se ‘Canção’:

Nunca eu tivera querido
Dizer palavra tão louca:
Bateu-me um vento na boca
E depois no teu ouvido.
Levou somente a palavra
Deixou ficar o sentido.

O sentido está guardado
No rosto com que te miro,
Nesse perdido suspiro
Que te segue alucinado,
No meu sorriso suspenso
Como um beijo malogrado.

Nunca ninguém viu ninguém
Que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
E eu sei que ela se vê bem...
Só se aquele mesmo vento
Fechou teus olhos, também...

Início

Quando optei designar este espaço como ‘Num Outro Sentido’ isso não decorreu de primeira escolha. Tinha outras possibilidades de denominação em mente, mas o blogger não permitiu, avisando que outros haviam tido a mesma ideia antes. Azar. Dessas ‘outras possibilidades’ vou falar mais adiante. Agora, quero brincar um pouco com o nome que, enfim, foi viabilizado.

Apesar de ser uma paixão antiga, ando a cada dia mais encantado com a escrita. Sempre gostei muito de ler. Aos poucos descobri a plasticidade dos sinais gráficos, a vida escondida ou revelada das palavras e aprendi a escrever. Outro dia acabei de ler um livro chamado ‘A Infância de Jesus’, o mais recente trabalho do escritor sul-africano J.M. Coetzee, ganhador do Nobel de Literatura em 2003. O livro traz uma proposta formal que achei muito inquietante, causando o mesmo desconforto que me produziram os filmes da ‘nouvelle vague’ no século passado: no fundo e no raso são, ambos, propostas de subversão.

Mas não é sobre isso que quero falar. Acontece que, na trama, um dos personagens é um menino, chamado David, que se recusa a ler tal qual está escrito, preferindo inventar sentidos e compor uma nova linguagem. Não trago o assunto por querer introduzir uma inovação linguística, mas porque o guri também se recusa a entender os números segundo a lógica clássica: para ele não faz sentido, por exemplo, a ordenação numérica, um, dois, três: ele os embaralha aleatoriamente.  

É aqui que eu queria chegar: aonde eu me aproximo e me afasto desse David. Os números, para mim, são muito abstratos, tão abstratos que todos eles me parecem ‘não racionais’. Quero dizer, individualmente, os números são como ‘caixas pretas’, enigmas praticamente indecifráveis. Agrupados em expressões aritméticas eles conseguem me transmitir mensagens quantitativas de modo ‘racional’, digamos assim, mas ainda me parecem limitados.

Por óbvio eu sei que o limitado sou eu, já que a própria filosofia informa que os números contêm qualidades simbólicas e divinas. Para Pitágoras, inclusive, “todas as coisas são números”. E talvez esteja bem aí o meu problema: minha falta de continente para tão profundos conteúdos. Como os números partem do zero, ou seja, do nada, e como não acabam, não havendo um ‘último número’, eles são como a eternidade, que é um conceito que não cabe na minha razão.

As palavras, pelo contrário, são para mim como mistérios desvendáveis, instigantes desafios, refúgios de ambiguidades, territórios de diversidades, moradias de múltiplos sentidos. As palavras me despertam possibilidades de compreensão, instigam significados e entendimentos, elas me transformam obrigatoriamente em sujeito ao me exigir que lhes atribua algum sentido. O convencional, ou num outro sentido.