Minha última postagem foi em 19 de julho. Fiquei quase dois
meses sem poder acessar o blog da maneira que gosto, podendo deixar fluir o
pensamento de acordo com o que o coração decide. Meu coração descompassou com a
morte da minha mãe e meus pensamentos tomaram outros rumos.
A morte da minha mãe era esperada, pois ela já tinha
completado 96 anos. Só não era esperada tão rapidamente como ocorreu.
No ano passado eu deixei meu apartamento e passei a morar
com ela que, apesar de não ser portadora de nenhuma doença que lhe colocasse em
risco de morte, apresentava os inevitáveis sinais do envelhecimento e da
decadência física. Embora ela ainda dispusesse de autonomia para as atividades
cotidianas, não tinha mais condições de morar sozinha e, como não aceitasse a
ideia de ter uma acompanhante estranha como cuidadora, a única alternativa
razoável possível foi minha mudança e presença.
No início deste ano ela, que já apresentava grande
dificuldade visual, especialmente para a leitura, começou a queixar-se de
dificuldade para caminhar trechos maiores, cansava facilmente e perdia o fôlego,
perdeu o prazer de ir ao supermercado, para o que reservava sagradamente as
manhãs de sábado, e almoçar fora, às terças e quintas feiras, num pequeno
restaurante localizado no andar térreo em que morava. Até os almoços de
domingo, num outro restaurante bem perto da casa da minha irmã, significava um
esforço a cada vez mais exigente e, de certa forma, penoso. As idas à igreja
foram rareando e por fim foram suspensas.
Sua vida, que sempre fora exuberante e ativa, apesar de ser
uma mulher conservadora e pouco audaciosa, foi perdendo seus atrativos e a
capacidade de interação, foi ficando limitada ao seu apartamento, à companhia
de um radinho de pilhas, a assistir às missas e bênçãos católicas pela
televisão. Eventualmente, recebia a visita dos netos e do bisneto de dois anos
que mora em Porto Alegre, ou de alguma de suas muitas amigas, com as quais
falava regularmente ao telefone.
Coincidiu com a chegada precoce do frio do inverno, ainda em
maio, a dificuldade até mesmo para se deslocar dentro do apartamento, para
tomar café à mesa da copa-cozinha, para sentar-se no sofá do gabinete, para ir
ao banheiro. Cochilava a maior parte do tempo.
A partir de julho as dificuldades se precipitaram a ponto de
precisar de ajuda para sair do quarto, doíam-lhe as pernas, as idas ao banheiro
já exigiam uma parada intermediária, a respiração foi ficando mais curta, a
necessidade de oxigênio exigindo um esforço maior do coração saudável, embora
envelhecido. As delicadas sessões de fisioterapia em casa resultavam
extenuantes.
Até que não conseguiu mais sair do quarto e, em seguida, não
tinha mais forças para sair da cama. A bengala proposta pelo médico nem chegou
a ser usada, precisava do concurso de pessoas para andar, passo a passo,
vacilante. O uso de fraldas geriátricas foi avassalador para seu narcisismo e
sua dignidade.
Qual o sentido de viver assim, sem poder de fato viver? O
espectro de vir, muito em breve, a necessitar de hospitalização e encontrar
abrigo nessa instituição em que se perde completamente a autonomia lhe parecia
aterrador.
Aos poucos foi optando por encerrar o ciclo e encarar a
morte que, apesar de sua religiosidade, tanto temia. O corpo doía muito,
queixava-se. Não conseguia se alimentar direito, até beber algum líquido lhe
era penoso. Os cuidados com o corpo e a aparência foram negligenciados.
Faltava-lhe o ar ao menor esforço, virar ou endireitar o corpo na cama passou a
ser tarefa árdua. O próprio sono tornou-se fragmentado e deixou de ser bálsamo
reparador.
O sentido de sua vida esgotou-se, estancou, ficou no tudo
até então vivido, aferrado à longa trajetória, desapareceu do presente e da
perspectiva sombria do futuro.
Na madrugada do dia oito de agosto, seu corpo aceitou a
opção da alma e desligou o coração. Apesar da ação da equipe de emergência presente,
a reanimação não obteve resposta.

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