terça-feira, 9 de julho de 2013

A importância dos hieróglifos


 
Hieróglifos são cada um dos sinais da escrita de antigas civilizações, tais como os egípcios, os hititas e os mais, ou como se denomina coloquialmente qualquer escrita de difícil interpretação ou que seja enigmática. É um termo originário de duas palavras gregas: ‘hierós’, sagrado, ‘glýphein’, escrita. Ou seja, apenas um grupo restrito e cauteloso de pessoas, formado por sacerdotes, membros da realeza, detentores de altos cargos e escribas conheciam a arte de ler e escrever esses sinais sagrados e, assim, mantinham um uso restrito das informações registradas, mesmo que estivessem expostas ao olhar de qualquer um, e protegiam seu significado da apropriação por quem não fosse um fiel depositário.

Diante das recentes revelações de Edward Snowden as mensagens herméticas voltaram à cena. Snowden é o estadunidense administrador de sistemas e ex-agente da CIA que denunciou ao mundo a espionagem realizada pelo governo americano sobre as comunicações e tráfego de informações, fazendo o monitoramento de mídias eletrônicas  e a vigilância das comunicações em tempo real entre civis, quaisquer indivíduos, em âmbito planetário. Vivemos tempos em que assume ares de realidade o personagem ‘Big Brother’ profetizado no livro ‘1984’, do escritor e jornalista inglês George Orwell, publicado em 1949.

Além da denúncia em si, interessante notar que Snowden, respondendo a um jornalista por que havia resolvido por a ‘boca no trombone’, disse que, ao lado dos problemas de consciência que vivenciava, como agente e analista de espionagem tinha acesso a “informações verdadeiras” (true information), “antes que elas fossem transformadas em propaganda pela mídia”. Ou seja, uma parte do esforço da Agência de Segurança dos Estados Unidos (NSA – National Security Agency) se concentra em formar a opinião pública, e para tanto a cooperação da mídia é fundamental, como já nos revelou o caso da ‘guerra do Iraque’. Voltaremos a esse aspecto mais tarde.

Numa sociedade permanentemente vigida, na opinião do jornalista australiano Julian Assenge, fundador do WikiLeaks (organização sem fins lucrativos que publica notícias e informações sigilosas ou secretas ‘vazadas’ ou denunciadas a partir de fontes anônimas), a criptografia é a arma atual de quem quer utilizar o ciberespaço com privacidade. Aliás, é uma grande aliada de todos os que querem manter informações sob sigilo desde tempos muito antigos.

Embora o estudo da criptografia, enquanto ramo especializado da teoria da informação, possa compreender bem mais do que apenas cifragem e decifragem de mensagens e textos, envolvendo contribuições de outros campos do conhecimento e da matemática, seu aspecto de codificação da informação é central.

A palavra criptografia deriva do grego ‘kryptós’, escondido, e ‘gráphein’, escrita, significando o estudo dos princípios e técnicas pelas quais a informação pode ser transformada da sua forma original para outra ilegível, de forma que possa ser conhecida apenas por seu destinatário, na condição de detentor da ‘chave secreta’, o que a torna difícil de ser lida por alguém não autorizado. Assim sendo, só o receptor da mensagem poderia ler a informação com facilidade. Uma informação não cifrada que é enviada de uma pessoa ou organização para outra é chamada de ‘texto claro’ ou ‘texto simples’ (plain text). Cifragem é o processo de conversão de um texto claro para um código cifrado e decifragem é o processo contrário, de recuperar o texto original a partir de um texto cifrado.

Exemplos de cifragem não faltam, ontem e hoje. Antigamente, embora fosse também usada em mensagens amorosas, para que relações privadas sigilosas não fossem descobertas por terceiros, a cifragem era utilizada prioritariamente na troca de mensagens em assuntos ligados às guerras.

Tem-se que o primeiro uso documentado da criptografia teria ocorrido em torno de 1.900 a.C., no Egito, quando um escriba usou hieróglifos fora do padrão numa inscrição. Por sua vez, entre 600 a.C. e 500 a.C., os hebreus utilizaram uma cifra (ou criptograma) de substituição simples monoalfabética e monogrâmica na qual os caracteres são trocados um a um por outros, e com ela teriam escrito o Livro de Jeremias. Igualmente exemplo de substituição simples, o chamado ‘Codificador de Júlio César’ ou ‘Criptograma de César’ fazia a substituição das letras avançando três posições no alfabeto.

Com o tempo as cifras se sofisticaram utilizando sequências de várias cifras com diferentes valores de deslocamento alfanumérico. Na Idade Média, a civilização árabe-islâmica contribuiu muito para os processos criptográficos, sobretudo a criptoanálise ou a procura de padrões que identificassem mensagens camufladas por códigos. Na Idade Moderna, além da troca periódica de chaves, a sofisticação incluiu a criação de uma máquina elétrico-mecânica. Aparentando ser uma máquina de escrever, quando o usuário pressionava uma tecla, um rotor avançava uma posição, provocando a rotação de outros rotores, sendo que esse movimento gerava diferentes combinações de encriptação dificultando a decodificação, uma vez que, para isso, seria necessário ter outra máquina dessas e saber qual a chave utilizada na codificação. Na atualidade, além da diversidade dos canais de propagação de mensagens criptografadas, surgiram diversos tipos de criptografia com utilização de múltiplas chaves.

Durante muito tempo, o termo referiu-se exclusivamente à cifragem, o processo de converter uma informação comum (texto claro, plain text) em algo não inteligível ou texto cifrado. A decifragem é a tarefa contrária ou converter uma informação não inteligível em texto claro. No uso coloquial, o termo ‘código’ é usado para referir-se a qualquer método de cifragem ou similar. Em criptografia, ‘código’ tem um significado mais específico, refere-se à substituição de uma unidade significativa, ou o significado de uma palavra ou frase, pelo substituto equivalente. A rigor, ‘códigos’ não são mais usados na criptografia moderna, visto que o uso de cifras ou criptogramas tornou-se mais prático e seguro, além de melhor adaptado aos computadores.

Nos dias atuais, onde grande parte dos dados é digital, o processo de criptografia é basicamente feito por algoritmos que fazem o embaralhamento dos bits (dígitos binários, ‘binary digit’ em inglês) desses dados a partir de uma determinada chave ou par de chaves, dependendo do sistema criptográfico escolhido.

O criptograma é composto de um ou mais algoritmos que cifram e decifram um texto. A operação do algoritmo costuma ter como parâmetro uma chave criptográfica conhecida apenas pelos comunicantes. O criptograma pode ser conhecido, mas não a chave: assim como se entende o mecanismo de uma fechadura comum, mas não se pode abrir a porta sem uma chave real.

Em linguagem não técnica, um código secreto é o mesmo que uma cifra ou criptograma. Porém, na linguagem especializada os dois conceitos são distintos. Um código funciona manipulando o significado, normalmente pela substituição simples de palavras ou frases. Uma cifra, ao contrário, trabalha na representação da mensagem (letras, grupos de letras ou, atualmente, bits). Por exemplo, um código seria substituir a frase "Atacar imediatamente" por "Mickey Mouse". Uma cifra seria substituir essa frase por "sysvst ozrfosyszrmyr".

Basicamente, códigos não envolvem chaves criptográficas, mas tabelas de substituição ou mecanismos semelhantes. Códigos podem ser então encarados como cifras cuja chave é o próprio conhecimento do mecanismo de funcionamento da cifra.

Uma chave criptográfica é um valor secreto que modifica um algoritmo de encriptação ou cifragem. Um algoritmo é uma sequência de instruções bem definidas e não ambíguas a serem executadas num período de tempo finito, podendo ser ilustrado como uma receita culinária, embora em geral seja mais complexo, podendo repetir passos ou necessitar de decisões até que a tarefa seja completada.

Curiosidade: a palavra ‘algoritmo’, segundo a noção predominante, derivaria de Al-Khwarizm, nome reduzido de um matemático, astrônomo, astrólogo e geógrafo persa do século IX, chamado Abū ‘Abd Allāh Muhammad ibn Mūsā al-Khwārizmī. Seu nome deriva da sua cidade natal, Khwarizm, hoje chamada Khiva, província do atual Uzbequistão.

Tal como os cuidados adotados pelos egípcios, hititas e maias com seus textos sagrados, alguns judeus capazes de aplicar certas técnicas especiais de cifragem, preservaram informações importantes da história de suas lideranças políticas e religiosas, em especial por estarem em disputas internas e por estarem sob o jugo romano. Embora se lute inexoravelmente por um Estado laico e contra as teocracias, religião e política são inseparáveis na medida em que em ambas há sempre uma disputa articulada por espaços de poder, explícitos ou subjacentes.

Por isso e neste contexto, cabe abordar a técnica pesher’ com mais detalhe e sua aplicação aos Evangelhos.

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