Hieróglifos
são cada um dos sinais da escrita de antigas civilizações, tais
como os egípcios, os hititas e os mais, ou como se denomina coloquialmente qualquer
escrita de difícil interpretação ou que seja enigmática. É um termo originário
de duas palavras gregas: ‘hierós’, sagrado, ‘glýphein’, escrita. Ou seja, apenas um grupo
restrito e cauteloso de pessoas, formado por sacerdotes, membros da realeza, detentores
de altos cargos e escribas conheciam a arte de ler e escrever esses sinais sagrados
e, assim, mantinham um uso restrito das informações registradas, mesmo que
estivessem expostas ao olhar de qualquer um, e protegiam seu significado da
apropriação por quem não fosse um fiel depositário.
Diante das recentes revelações
de Edward Snowden as mensagens herméticas voltaram à cena. Snowden é o estadunidense administrador de sistemas e ex-agente da
CIA que denunciou ao mundo a espionagem realizada pelo governo americano sobre
as comunicações e tráfego de informações, fazendo o monitoramento de mídias
eletrônicas e a vigilância das
comunicações em tempo real entre civis, quaisquer indivíduos, em âmbito
planetário. Vivemos tempos em que assume ares de realidade o personagem ‘Big
Brother’ profetizado no livro ‘1984’, do escritor e jornalista inglês George
Orwell, publicado em 1949.
Além da denúncia em si, interessante notar que Snowden, respondendo a um
jornalista por que havia resolvido por a ‘boca no trombone’, disse que, ao lado dos
problemas de consciência que vivenciava, como agente e analista de espionagem
tinha acesso a “informações verdadeiras” (true
information), “antes que elas fossem transformadas em propaganda pela
mídia”. Ou seja, uma parte do esforço da Agência de Segurança dos Estados
Unidos (NSA – National Security Agency)
se concentra em formar a opinião pública, e para tanto a cooperação da mídia é
fundamental, como já nos revelou o caso da ‘guerra do Iraque’. Voltaremos a esse aspecto mais tarde.
Numa sociedade permanentemente
vigida, na opinião do jornalista australiano Julian Assenge, fundador do WikiLeaks (organização sem fins lucrativos que
publica notícias e informações sigilosas
ou secretas ‘vazadas’ ou denunciadas a partir de fontes
anônimas), a criptografia é a arma atual de quem
quer utilizar o ciberespaço com privacidade. Aliás, é uma grande aliada de
todos os que querem manter informações sob sigilo desde tempos muito antigos.
Embora o estudo da criptografia, enquanto ramo especializado da teoria da
informação, possa compreender bem mais do que apenas cifragem e decifragem de
mensagens e textos, envolvendo contribuições de outros campos do conhecimento e
da matemática, seu aspecto de codificação da informação é central.
A palavra criptografia deriva do grego ‘kryptós’, escondido, e ‘gráphein’,
escrita, significando o estudo dos princípios e técnicas pelas quais a
informação pode ser transformada da sua forma original para outra ilegível, de
forma que possa ser conhecida apenas por seu destinatário, na condição de
detentor da ‘chave secreta’, o que a torna difícil de ser lida por alguém não
autorizado. Assim sendo, só o receptor da mensagem poderia ler a informação com
facilidade. Uma informação não cifrada que é enviada de uma pessoa ou
organização para outra é chamada de ‘texto claro’ ou ‘texto simples’ (plain text).
Cifragem é o processo de conversão de um texto claro para um código cifrado e
decifragem é o processo contrário, de recuperar o texto original a partir de um
texto cifrado.
Exemplos
de cifragem não faltam, ontem e hoje. Antigamente,
embora fosse também usada em mensagens amorosas, para que relações privadas
sigilosas não fossem descobertas por terceiros, a cifragem era utilizada
prioritariamente na troca de mensagens em assuntos ligados às guerras.
Tem-se que o primeiro uso documentado da criptografia
teria ocorrido em torno de 1.900 a.C., no Egito, quando um escriba usou
hieróglifos fora do padrão numa inscrição. Por sua vez, entre 600 a.C. e 500
a.C., os hebreus utilizaram uma cifra (ou criptograma) de substituição simples
monoalfabética e monogrâmica na qual os caracteres são trocados um a um por
outros, e com ela teriam escrito o Livro de Jeremias. Igualmente exemplo de
substituição simples, o chamado ‘Codificador de Júlio César’ ou ‘Criptograma de
César’ fazia a substituição das letras avançando três posições no alfabeto.
Com o tempo as cifras se sofisticaram utilizando
sequências de várias cifras com diferentes valores de deslocamento
alfanumérico. Na Idade Média, a civilização árabe-islâmica contribuiu muito
para os processos criptográficos, sobretudo a criptoanálise ou a procura
de padrões que identificassem mensagens camufladas por códigos. Na Idade
Moderna, além da troca periódica de chaves, a sofisticação incluiu a criação de
uma máquina elétrico-mecânica. Aparentando ser uma máquina de escrever, quando
o usuário pressionava uma tecla, um rotor avançava uma posição, provocando a
rotação de outros rotores, sendo que esse movimento gerava diferentes
combinações de encriptação dificultando a decodificação, uma vez que, para
isso, seria necessário ter outra máquina dessas e saber qual a chave utilizada
na codificação. Na atualidade, além da diversidade dos canais de propagação de
mensagens criptografadas, surgiram diversos tipos de criptografia com
utilização de múltiplas chaves.
Durante muito tempo, o termo referiu-se exclusivamente à cifragem, o processo de converter uma informação comum (texto claro, plain text) em algo não inteligível ou texto cifrado. A decifragem é a tarefa contrária ou converter uma informação não inteligível em texto claro. No uso coloquial, o termo ‘código’ é usado para referir-se a qualquer método de cifragem ou similar. Em criptografia, ‘código’ tem um significado mais específico, refere-se à substituição de uma unidade significativa, ou o significado de uma palavra ou frase, pelo substituto equivalente. A rigor, ‘códigos’ não são mais usados na criptografia moderna, visto que o uso de cifras ou criptogramas tornou-se mais prático e seguro, além de melhor adaptado aos computadores.
Nos dias atuais, onde grande parte dos dados é digital, o processo de
criptografia é basicamente feito por algoritmos que fazem o embaralhamento dos
bits (dígitos binários, ‘binary digit’ em inglês)
desses dados a partir de uma determinada chave ou par de chaves, dependendo do
sistema criptográfico escolhido.
O criptograma é composto de um ou mais algoritmos que cifram e decifram um
texto. A operação do algoritmo costuma ter como parâmetro uma chave
criptográfica conhecida apenas pelos comunicantes. O criptograma pode ser
conhecido, mas não a chave: assim como se entende o mecanismo de uma fechadura
comum, mas não se pode abrir a porta sem uma chave real.
Em linguagem não técnica, um código secreto é o mesmo que uma cifra ou
criptograma. Porém, na linguagem especializada os dois conceitos são distintos.
Um código funciona manipulando o significado,
normalmente pela substituição simples de palavras ou frases. Uma cifra, ao
contrário, trabalha na representação
da mensagem (letras, grupos de letras ou, atualmente, bits). Por exemplo, um
código seria substituir a frase "Atacar imediatamente" por
"Mickey Mouse". Uma cifra seria substituir essa frase por
"sysvst ozrfosyszrmyr".
Basicamente, códigos não envolvem chaves criptográficas, mas tabelas de
substituição ou mecanismos semelhantes. Códigos podem ser então encarados como
cifras cuja chave é o próprio conhecimento do mecanismo de funcionamento da
cifra.
Uma chave criptográfica é um valor secreto que modifica
um algoritmo de encriptação ou cifragem. Um algoritmo é uma sequência de instruções bem definidas e não
ambíguas a serem executadas num período de tempo finito, podendo ser ilustrado
como uma receita culinária, embora em geral seja mais complexo, podendo repetir
passos ou necessitar de decisões até que a tarefa seja completada.
Curiosidade: a palavra ‘algoritmo’, segundo a noção predominante, derivaria
de Al-Khwarizm, nome reduzido de um matemático, astrônomo, astrólogo e geógrafo
persa do século IX, chamado Abū ‘Abd
Allāh Muhammad ibn Mūsā al-Khwārizmī. Seu nome deriva da sua cidade natal,
Khwarizm, hoje chamada Khiva, província do atual Uzbequistão.
Tal como os cuidados adotados pelos egípcios, hititas e maias com seus
textos sagrados, alguns judeus capazes de aplicar certas técnicas especiais de
cifragem, preservaram informações importantes da história de suas lideranças
políticas e religiosas, em especial por estarem em disputas internas e por
estarem sob o jugo romano. Embora se lute inexoravelmente por um Estado laico e
contra as teocracias, religião e política são inseparáveis na medida em que em
ambas há sempre uma disputa articulada por espaços de poder, explícitos ou
subjacentes.
Por isso e neste contexto, cabe abordar a técnica ‘pesher’ com mais detalhe e sua aplicação
aos Evangelhos.

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