segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Traduzir é trair (ou cegar)



Já que fiquei esse tempo todo longe do blog, devido à morte de minha mãe, sinto falta de, antes de retomar as postagens, fazer um alinhavo das ideias colocadas aqui a partir de seu início. Preciso retomar o nexo entre elas para voltar a falar da mesma coisa sem me repetir (muito).

O principal já foi dito no texto inaugural: tenho imenso prazer em lidar com as palavras e ‘capturar’ seu sentido, seja na leitura, seja na escrita. Parafraseando uma amiga, às vezes é preciso, inclusive, ‘torturar’ as palavras até extrair seu sentido original. Quer dizer, apreender seu sentido exige esforço.

Não chego ao exagero de me pretender um sábio judeu e desenvolver o procedimento ‘pesher’ utilizado para ultrapassar a superfície dos textos sagrados e alcançar seu sentido oculto. Mas bebo dessa fonte, tanto por deleite quanto por um pouco de vício adquirido no exercício da clínica psicológica, que sempre exigiu empenho de tentar entender exatamente o sentido das palavras usadas pelas pessoas atendidas. A gente sabe bem, pelo exercício cotidiano da fala, o quanto as palavras ‘traem’ seu sentido original, por ato deliberado ou involuntário. Com a escrita se dá o mesmo e talvez na leitura se tenha melhores condições de ler e reler uma palavra e sua articulação com outras tantas até que se consiga ultrapassar o significante, explicitado nos grafemas, e alcançar o significado que subjaz.

Quando a gente fala, os silêncios participam ostensivamente da comunicação. Na escrita, por óbvio, é pertinente demais a sugestão de Clarice Lispector quanto à importância de saber ‘ler’ as entrelinhas, que são os ‘silêncios’ do texto. Na mesma e oposta medida em que o que se fala ou escreve pode ou não revelar com transparência o que se quer dizer, aquilo que uma narrativa oculta contém, inevitavelmente, o significado primordial de sua realização. Se as palavras ‘traem’, os ‘silêncios’ dos textos são incapazes de infidelidade.

E é disso que eu quero falar aqui: daquilo que os textos do Novo Testamento nos ocultam e que, ao identificar, nos revelam.

Mas, ainda antes, quero lembrar o quanto somos ou fomos capazes de nos acomodar às práticas educacionais ‘bancárias’ tradicionais, em que o questionamento e a reflexão crítica eram desaconselhados ou mesmo proibidos. Nasci numa família católica, fui educado numa escola católica e vivi (ainda vivo) numa sociedade predominantemente católica: qualquer dissidência à verdade dogmática era (ainda é) relegada à marginalização.

A história dos eventos relatados nos textos ditos ‘sagrados’, que tratam de fatos envolvendo personagens surpreendentes, foi sempre mediada por uma única narrativa possível, totalmente desconectada de seu contexto fático original. Eu lamento tanto que não tenham me oferecido outras narrativas, possivelmente mais reais... Lamento mesmo. Hoje, no entanto, ao meu modo, me apropriei destas possibilidades, parte pelo incentivo de meu pai, que sempre me apontou nesta direção, parte pela minha própria curiosidade. Tardiamente (mas nunca demasiado tarde) reconheci a importância dos Manuscritos do Mar Morto, posto que descobertos na metade do século passado em Qumran, em especial o ‘pesher’ de Habacuc que dá a chave do criptograma bíblico, revelando os códigos (alteração do significado da mensagem pela substituição de palavras, tipo ‘o filho do trovão’ como veremos adiante) adotados pelos judeus essênios como proteção frente aos perseguidores e permitindo o indispensável ajuste das datas mediante sua conversão através dos diversos calendários que vigeram desde a Antiguidade, ambos os assuntos exaustivamente tratados por Barbara Thiering em suas obras.

Todo este abrangente conhecimento me foi suprimido e para tantos outros é ainda um mistério dissimulado e tolhido pela Vulgata, a versão latina da Bíblia usada pela Igreja Católica. O conhecimento destinado aos iniciados com ‘ouvidos para ouvir’, veiculado nos textos apócrifos, nos foi banido e considerado ‘falso’, quando era meramente clandestino, pela força ideológica dos que pretendiam apenas manter sua dominação.

A traição ao sentido original das palavras utilizadas pelos redatores primevos foi deliberada e ideológica, pois continha um (ou mais de um) sentido político do interesse da Roma Imperial.

A história de imperador Constantino I, pontifex maximus ou Sumo Pontífice, revela um adepto fervoroso do Deus Sol Invicto que resolveu usar politicamente a força do cristianismo crescente entre a população para fortalecer seu próprio poder e enfrentar a decadência romana. Em 313, através do ‘Édito de Milão’ ou ‘Édito da Tolerância’, Constantino decretou a liberdade de culto, dando ao cristianismo (e a todas as outras religiões) estatuto de legitimidade, o que na prática acabou com as perseguições sancionadas oficialmente e, sobretudo, anulou o estabelecimento do paganismo como a religião oficial do Império Romano e de seus exércitos.

Quando o último imperador romano, Teodósio I, decretou em 380 o ‘Édito de Tessalônica’ tornando o cristianismo a ‘religião de estado’ exclusiva do Império Romano e abolindo todas as práticas politeístas, teria apenas sacramentado um processo de várias décadas, consolidando a tendência inaugurada por Constantino.

É de Constantino a expressão In hoc signo vinces’ (‘Sob este signo vencerás’) oriunda de uma mítica visão onírica que ele mais tarde atribuiu ao Deus cristão, e foi ele quem convocou o Concílio de Nicéia em 325, que resultou, entre tantas outras barbaridades, em definir Jesus como Deus, tal como reza o ‘Credo Niceno’ que é recitado quase igual ainda hoje: “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da terra. E em Jesus Cristo, seu único Filho Nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria...”.

Volto a isso logo mais (esse período merece ser revisto!): o que conta aqui é ter presente que a partir daí a religião cristã se institucionalizou efetivamente enquanto clero, com o reforço da figura dos bispos, especialmente aqueles dos grandes centros urbanos, como Roma, que ampliaram seu poder controlando as províncias eclesiásticas. A história é longa e, de certa forma confusa, mas o bispado de Roma ousou sobrepor-se aos demais, assumindo a denominação política de ‘Papa’ e alegando ser o herdeiro do apóstolo Pedro, que teria recebido de Jesus a incumbência de propagar a fé cristã entre os povos. Ocidentalizado e burocratizado numa nova articulação política, o cristianismo viu, cada vez mais, se extinguir seu caráter palestino original.

O Império Romano, então a mais extensa e populosa entidade política unificada no Ocidente, abrangia territórios do norte da Europa (desde o oceano Atlântico na costa norte da Grã-Bretanha e toda a Europa continental) ao Norte da África, incluindo a totalidade da área do Mediterrâneo Oriental, que compunha a maior parte do Oriente Médio: a expressão latina ‘imperium sine fine’ (‘império sem fim’) expressa a convicção de que nem tempo e nem espaço o limitavam.

O latim, que originalmente era falado apenas no Lácio, a região da Itália central no entorno de Roma, havia se transformado na língua oficial do Império Romano na configuração geopolítica à época da sua conversão ao cristianismo. Por conta da simbiose entre as duas instituições, foi também a língua adotada oficialmente pela Igreja Católica Romana, exigindo que os textos sagrados fossem traduzidos para o latim.

Quem deu, oficialmente, conta dessa demanda foi São Jerônimo ou Jerônimo de Estridão, doutor da Igreja que, a pedido do então papa Dâmaso, traduziu o Antigo e o Novo Testamento para o latim no século IV d.C. Em parte, utilizou-se de textos em grego da ‘Septuaginta’, em parte de textos avulsos do Novo Testamento em grego, em parte dos textos da ‘Vetus Latina’ (antiga versão do grego da Septuaginta para o latim), e ainda eventualmente recorreu aos textos originais em hebraico e aramaico para uma tradução revisada diretamente para o latim. Sua tradução foi revisada por outros teólogos e o Concílio de Trento definiu uma nova edição em 1546. Novas revisões foram adotadas até a publicação da ‘Nova Vulgata’, também executada por determinação papal, concretizada em 1979.

Ora, nos processos de tradução há sempre o risco de ‘traição’ ao sentido original das palavras, a ponto de se dizer: ‘traduttore, traditore’. Mas este, apesar de real e sério, não é o único problema entre os textos originais e os a que temos acesso hoje.

A versão grega da ‘Bíblia hebraica’ original enfrentou muitas dificuldades, desde a questão das ideias teológicas e exegéticas do judaísmo palestino e alexandrino, até a questão linguística, talvez a mais séria de todas. Acontece que o hebraico é uma língua semítica oriental que se escreve da direita para a esquerda, não tem vogais e  possui um princípio gramatical todo especial. O grego, por sua vez, é uma língua ocidental do grupo das Indo-europeias,  escrita da esquerda para a direita, com uma gramática específica e muito rica em declinações, conjugações e casos gramaticais.

As dificuldades enfrentadas pelos tradutores foram imensas, sem contar os interesses pessoais que existiram e com certeza muita coisa importante ficou perdida nas alterações ocorridas  durantes as traduções.

O processo de tradução do hebraico (e possivelmente de trechos em aramaico) se iniciou no século III a. C., quando uma importante colônia judaica vivia no Egito, especificamente em Alexandria, onde se  falava comumente a língua  grega. Havia necessidade de que o povo judeu possuísse seus textos sagrados (que incluem o Antigo Testamento cristão, embora com outra divisão, mas contêm vários outros livros) em grego. Há discordâncias sobre a veracidade desse fato, mas se aceita que no reinado do rei egípcio Ptolomeu II, a pedido do bibliotecário real,  o sumo sacerdote Eleazar enviou de Jerusalém setenta e dois sábios, seis representantes para cada uma das doze tribos de Israel, a fim de traduzirem a ‘Bíblia hebraica’ para o grego koiné, um dialeto comum (koiné significa ‘comum’) suprarregional, usual entre a maioria da população grega e prevalente também nas regiões mediterrâneas orientais. Assim, essa tradução para o grego recebeu o nome de ‘Septuaginta’ e passou a fazer parte da biblioteca real de Alexandria.

Muitos rabinos e sábios judeus lamentaram fortemente essa tradução, afirmando que a Torá (similar do Pentateuco, ou os cinco livros do Antigo Testamento cristão) não poderia ser jamais acuradamente traduzida. Séculos mais tarde, foi também em meio a muitas dissonâncias que Jerônimo concluiu seu trabalho, apoiado na supremacia papal que reprimiu as divergências doutrinárias e impôs a opinião do bispo de Roma à cristandade.

Ou seja, além das dificuldades de tradução havia a questão política, pela qual o ‘verdadeiro’ sentido das palavras é, enfim, determinado por quem detém o poder: a fim de por termo às divergências de opinião, no momento em que vários concílios discutiam acerca da natureza de Jesus, uns admitindo, outros rejeitando a sua divindade, o papa Dâmaso  confiou a Jerônimo a pretensa missão de redigir uma tradução latina definitiva do Antigo e do Novo testamento que daí em diante seria a única reputada ortodoxa e tornar-se-ia a norma das doutrinas da Igreja.

O próprio Jerônimo sentiu o peso da responsabilidade,  escreveu ao papa um demonstrativo de suas preocupações, referindo-se à sua tradução latina dos evangelhos. Eis o seu desabafo: Da velha obra me obrigais a fazer obra nova. Quereis que, de alguma sorte, me coloque como árbitro entre os exemplares das Escrituras que estão dispersos por todo o mundo, e, como diferem  entre si, que eu distinga os que estão de acordo com o verdadeiro texto grego. É um piedoso trabalho, mas é também um perigoso arrojo, da parte de quem deve ser por todos julgado, julgar ele mesmo os outros, querer mudar a língua de um velho e conduzir à infância o mundo já envelhecido. (...) Qual, de fato, o sábio  e mesmo o ignorante que, desde que tiver nas mãos um exemplar (novo), depois de o haver percorrido apenas uma vez, vendo que se acha em desacordo com o que está habituado a ler, não se ponha imediatamente a clamar que eu sou um sacrílego, um falsário, porque terei tido a audácia de acrescentar, substituir, corrigir alguma coisa nos antigos livros? (...) Um duplo motivo me consola desta acusação. O primeiro é que vós, que sois o soberano pontífice, me ordenais que o faça; o segundo é que a verdade não poderia existir em coisas que divergem, mesmo quando tivessem elas  por si a aprovação dos maus”.

Jerônimo foi sábio e coerente diante da responsabilidade assumida, dando testemunho de alterações que realizou na Bíblia. Santo Agostinho, também Doutor da Igreja e bispo de Hipona, escreveu em 395 ao amigo e contemporâneo Jerônimo demonstrando preocupação com seu trabalho e testemunhando alguma falta de exatidão nas traduções bíblicas: A meu ver, eu preferiria que tu antes nos interpretasse as Escrituras gregas canônicas que são atribuídas aos setenta intérpretes, pois se há dissonância entre o latim das antigas  versões e o grego da Setenta, pode-se ir verificar, mas se há dissonância entre o latim da nova versão e o texto conhecido do público, como dar a prova da sua exatidão?”. Ainda assim, Agostinho teria atenuado: Antes ser repreendido pelos gramáticos do que não ser compreendido pelo povo”.
 
A questão que resta é: os processos de tradução e de disputa política, associados aos interesses de manipulação por parte dos que detêm legítima ou ilegitimamente o poder, sequestram intencionalmente os sentidos originais das palavras utilizadas nos ditos ‘textos sagrados’ que compõem indispensável referência para a compreensão histórica dos personagens ali envolvidos a ponto de nos cegar?

O sentido da vida e da morte


Minha última postagem foi em 19 de julho. Fiquei quase dois meses sem poder acessar o blog da maneira que gosto, podendo deixar fluir o pensamento de acordo com o que o coração decide. Meu coração descompassou com a morte da minha mãe e meus pensamentos tomaram outros rumos.

A morte da minha mãe era esperada, pois ela já tinha completado 96 anos. Só não era esperada tão rapidamente como ocorreu.

No ano passado eu deixei meu apartamento e passei a morar com ela que, apesar de não ser portadora de nenhuma doença que lhe colocasse em risco de morte, apresentava os inevitáveis sinais do envelhecimento e da decadência física. Embora ela ainda dispusesse de autonomia para as atividades cotidianas, não tinha mais condições de morar sozinha e, como não aceitasse a ideia de ter uma acompanhante estranha como cuidadora, a única alternativa razoável possível foi minha mudança e presença.

No início deste ano ela, que já apresentava grande dificuldade visual, especialmente para a leitura, começou a queixar-se de dificuldade para caminhar trechos maiores, cansava facilmente e perdia o fôlego, perdeu o prazer de ir ao supermercado, para o que reservava sagradamente as manhãs de sábado, e almoçar fora, às terças e quintas feiras, num pequeno restaurante localizado no andar térreo em que morava. Até os almoços de domingo, num outro restaurante bem perto da casa da minha irmã, significava um esforço a cada vez mais exigente e, de certa forma, penoso. As idas à igreja foram rareando e por fim foram suspensas.

Sua vida, que sempre fora exuberante e ativa, apesar de ser uma mulher conservadora e pouco audaciosa, foi perdendo seus atrativos e a capacidade de interação, foi ficando limitada ao seu apartamento, à companhia de um radinho de pilhas, a assistir às missas e bênçãos católicas pela televisão. Eventualmente, recebia a visita dos netos e do bisneto de dois anos que mora em Porto Alegre, ou de alguma de suas muitas amigas, com as quais falava regularmente ao telefone.

Coincidiu com a chegada precoce do frio do inverno, ainda em maio, a dificuldade até mesmo para se deslocar dentro do apartamento, para tomar café à mesa da copa-cozinha, para sentar-se no sofá do gabinete, para ir ao banheiro. Cochilava a maior parte do tempo.

A partir de julho as dificuldades se precipitaram a ponto de precisar de ajuda para sair do quarto, doíam-lhe as pernas, as idas ao banheiro já exigiam uma parada intermediária, a respiração foi ficando mais curta, a necessidade de oxigênio exigindo um esforço maior do coração saudável, embora envelhecido. As delicadas sessões de fisioterapia em casa resultavam extenuantes.

Até que não conseguiu mais sair do quarto e, em seguida, não tinha mais forças para sair da cama. A bengala proposta pelo médico nem chegou a ser usada, precisava do concurso de pessoas para andar, passo a passo, vacilante. O uso de fraldas geriátricas foi avassalador para seu narcisismo e sua dignidade.

Qual o sentido de viver assim, sem poder de fato viver? O espectro de vir, muito em breve, a necessitar de hospitalização e encontrar abrigo nessa instituição em que se perde completamente a autonomia lhe parecia aterrador.

Aos poucos foi optando por encerrar o ciclo e encarar a morte que, apesar de sua religiosidade, tanto temia. O corpo doía muito, queixava-se. Não conseguia se alimentar direito, até beber algum líquido lhe era penoso. Os cuidados com o corpo e a aparência foram negligenciados. Faltava-lhe o ar ao menor esforço, virar ou endireitar o corpo na cama passou a ser tarefa árdua. O próprio sono tornou-se fragmentado e deixou de ser bálsamo reparador.

O sentido de sua vida esgotou-se, estancou, ficou no tudo até então vivido, aferrado à longa trajetória, desapareceu do presente e da perspectiva sombria do futuro.

Na madrugada do dia oito de agosto, seu corpo aceitou a opção da alma e desligou o coração. Apesar da ação da equipe de emergência presente, a reanimação não obteve resposta.
 
Numa breve agonia, em sua própria cama, minha mãe fez coincidir o sentido de sua vida com o misterioso sentido da morte.