Segundo as regras dos
dicionários, as palavras apresentam várias acepções ou sentidos
de acordo com cada contexto Ou adquirem sentidos segundo cada ouvinte, por
extensão da própria etimologia de ‘acepção’ que deriva do termo em Latim acceptìo,
acceptìònis 'ação de receber, compreensão de uma palavra ou sentido que lhe
dá quem a ouve'.
Para isso, meu
dicionário Houaiss dá como exemplo a palavra ‘ponto’, que adquire um sentido peculiar
em cada seara que habita, seja no âmbito dos conhecimentos linguísticos
(pontuação de um texto), ou no âmbito da costura, outro na geografia, ainda
outros na geometria, nos jogos, ou na rotina escolar, etc.
Os sentidos das
palavras então não dependem apenas delas, mas da ação do ouvinte ou leitor, não
como elemento passivo e sim como sujeito perante elas. Também se pode ir
adiante e entender este acceptìo como
uma admissão, uma aceitação e, avançando mais ainda, como uma acolhida feita
não só às palavras, mas às demandas ou às pessoas.
Jean-Paul Sartre
publicou no século passado um livro intitulado ‘Les Mots’, ou ‘As Palavras’ conforme a edição em português, uma
obra autobiográfica dividida em duas partes (‘Ler’ e ‘Escrever’) que cobre sua
infância dos quatro aos onze anos de idade e trata da apropriação da vida nas
palavras e a realização da história através delas.
Sem presunção ou
soberba, um pouco disso ecoa em mim.
Duas vertentes
principais me aproximaram das palavras. Uma delas, talvez hereditária, tem
relação com meu pai, Eduardo, que na falta de outros livros lia dicionários (segundo
relato dele próprio). Tinha uma farta biblioteca da qual ainda me sirvo. A
outra é da minha constituição, talvez decorrência da anterior: tenho um
fascínio primevo pelas palavras. Criava histórias ainda antes de aprender a ler
e a escrever, e ainda no ensino fundamental gostava da escrita e me destacava
nesse exercício. Com o passar do tempo, surgiu o desejo de romper suas cascas e
alcançar suas origens escondidas: um especial apreço à etimologia que me levou
inclusive às línguas estrangeiras.
Além disso, duas
circunstâncias me trouxeram à composição deste blog. Recentemente (nem tão
recentemente, mas parece que foi ontem), resolvi resgatar a ancestralidade dos
meus netos Felipe e Caetano e da neta Iara num esforço genealógico. Por um
lado, isso me obrigou a mexer em alguns guardados, rever acontecimentos,
decifrar alguns percursos (meus e alheios) e, sobretudo, fazer ‘investigações’
a partir de alguns fatos isolados, particulares, que se mostraram como ‘pistas’.
Nesse exercício, determinadas peças foram se articulando como se fizessem parte
de uma extensa derrubada de dominós, embora sem nada destruir ou demolir: pelo
contrário, à medida que uma coisa puxava outra foi se construindo um novo
passado que me levou a tempos imemoriais.
E, enfim, a
derradeira circunstância (embora coetânea à outra) foi a leitura do livro ‘Jesus the Man – Decoding the real story of Jesus and
Mary Magdalene’,
da historiadora e teóloga australiana Barbara Thiering. Essa autora utiliza um
procedimento chamado ‘pesher’ (no
plural, ‘pesharim’), uma palavra do hebraico que significa ‘interpretação’, no
sentido de ‘solução’.
Apesar da palavra ‘pesher’ aparecer nos textos do Antigo Testamento, recebe
ali o sentido de ‘interpretação dos sonhos’. Uma pessoa especialmente dotada,
embora uma pessoa qualquer, poderia descobrir os sentidos ocultos de um sonho,
sentidos que não seriam aparentes para os demais. Esse sentido oculto teria
sido colocado no sonho por Deus, cabendo ao intérprete apenas debruçar-se sobre
o sonho e extrair a sabedoria ali contida como quem decifra um enigma.
Esse procedimento tão ancestral tornou-se mais conhecido a partir de textos
encontrados entre os rolos (‘scrolls’) ou Manuscritos do Mar Morto. Ali os ‘pesharim’ oferecem uma teoria sobre a
interpretação escritural, anteriormente conhecida parcialmente, agora
totalmente definida. Os escritores dos pesharim, ou seja, os autores das
interpretações acreditam que as Escrituras Sagradas estão escritas em dois
níveis: um superficial, voltado aos leitores comuns e de conhecimentos limitados,
e outro oculto, disponível apenas para especialistas qualificados, dotados de
maiores conhecimentos.
Fazer a leitura da minha história e revisar as origens dos antepassados
próximos e remotos permitiu uma recuperação de sentidos, como quem recupera a
consciência das coisas, a própria razão, o discernimento e a identidade.
Volto a isso, com
mais detalhes, mais adiante.

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