terça-feira, 9 de julho de 2013

As palavras traem?


 

Em linguística, ‘sentido’ é aquilo que uma palavra ou frase podem significar num determinado contexto, ou seja, o ‘sentido’ revela o significado de um termo. Ou não.
 
Pode-se dizer isso a partir de vários ângulos. Do ponto de vista mais banal, o significado de uma palavra é dado por dotação subjetiva múltipla, pois contém, pelo menos, a subjetividade do narrador e a do ouvinte ou leitor.
 
Subjetividade enquanto aquilo que me pertence, que é inalienável, que me faz sujeito, ‘eu’, aquilo de que ninguém me desapropria, mas que posso oferecer, revelar, exibir. Ou seja, estamos tratando de algo que, em geral, está oculto aos demais (sem falar que muitas vezes está ‘oculto’ para mim mesmo) e que eu posso deixar ver. Ou não.
 
Além do sentido pretendido pelo ‘emissor’ da mensagem escrita ou falada, outro ponto de vista refere-se à capacidade do ‘receptor’ de identificar o sentido intencionado. Às vezes, tal como aparece na poesia de Cecilia em postagem anterior, assim como “um vento” pode levar uma palavra despojada de sentido da minha boca ao ouvido de alguém, esse mesmo “vento” pode impedir alguém de ‘ver’ ou ‘perceber’ o sentido do que lhe é revelado.
 
A história revela permanente esforço de comunicação entre os humanos, sendo requisito indispensável à troca de ideias e experiências. A comunicação é o processo de transmissão de uma mensagem entre um emissor e um receptor, sendo a mensagem codificada na fonte e decodificada no destino. Eventualmente implica em outra mensagem como resposta. De um modo geral e bem sumário, pode-se dizer que os sinais utilizados na comunicação podem ser gestuais, sonoros ou gráficos que são detectados pelos sentidos (visão, audição, olfação, gustação).
 
A rigor todas as espécies animais comunicam sentimentos e emoções através de sinais, com menor ou maior grau de complexidade na elaboração destes sinais, tal como ocorre entre os humanos que desenvolveram a linguagem articulada e simbólica, falada e escrita, sendo capazes de lançar mão de pensamento reflexivo, abstrato e imaginário.
 
Embora a linguagem humana utilize símbolos específicos e convencionais, os símbolos linguísticos, ou palavras, apresentam duas dimensões: o significante, que corresponde aos sons (fonemas) ou aos sinais gráficos (grafemas) através dos quais nos expressamos, e o significado, que corresponde ao conceito ou sentido que nós associamos aos fonemas ou aos grafemas utilizados. É exatamente essa capacidade ou habilidade de codificar e decodificar adequadamente os significados ou sentidos que dá complexidade à comunicação humana.
 
Além disso, há um processo simbólico também presente na comunicação gestual, corporal ou facial entre os humanos, independente da utilização de fonemas ou grafemas. O silêncio, por exemplo, é que estabelece o ritmo da comunicação verbal, na condição de espaço de organização das palavras e do seu sentido contextual. Há pausas dotadas de diferentes sentidos: podem servir para delegar a palavra ao interlocutor, para dar espaço ao pensamento ou à interiorização da mensagem, para possibilitar a gestão das emoções decorrentes de trocas de significantes, e tantos outros possíveis. Na escrita, o silêncio pode habitar o que se diz sem dizer, sem escrever: as entrelinhas.
 
Mas, enfim, entre as diferentes possibilidades de comunicar, entra a manifestação explícita das palavras e dos silêncios, o que eu quero salientar é que as palavras podem ser utilizadas para revelar ou para esconder, dissimular, enganar. Cuidado: como diz Caio Fernando Abreu: “As palavras traem o que a gente sente”. Acho que Caio se referia à insuficiência das palavras em explicitar em seu significado a intensidade e a magnitude das emoções. No entanto, se não traem, podem trair, não só o que a gente sente, mas a realidade que a gente narra.
 
Para além dos estilos literários, as narrativas são quaisquer exposições de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos mais ou menos encadeados, reais ou imaginários, pessoais ou envolvendo outrem, utilizando-se palavras ou imagens (ou ambas). Estamos constantemente narrando acontecimentos, contando sobre eventos que assistimos ou participamos ou sobre os quais ouvimos falar. Na condição de emissores e receptores, percebemos subjetivamente a realidade, a nós mesmos e as nossas circunstâncias e circunstantes, e assim fazemos sempre uma narrativa parcial, independente de nossa melhor boa fé e boa vontade. Ou seja, sempre há o risco de alguma ‘traição’.
 
Imagine-se então se a narrativa partir de uma motivação de má fé. Dá para imaginar?








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