segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Traduzir é trair (ou cegar)



Já que fiquei esse tempo todo longe do blog, devido à morte de minha mãe, sinto falta de, antes de retomar as postagens, fazer um alinhavo das ideias colocadas aqui a partir de seu início. Preciso retomar o nexo entre elas para voltar a falar da mesma coisa sem me repetir (muito).

O principal já foi dito no texto inaugural: tenho imenso prazer em lidar com as palavras e ‘capturar’ seu sentido, seja na leitura, seja na escrita. Parafraseando uma amiga, às vezes é preciso, inclusive, ‘torturar’ as palavras até extrair seu sentido original. Quer dizer, apreender seu sentido exige esforço.

Não chego ao exagero de me pretender um sábio judeu e desenvolver o procedimento ‘pesher’ utilizado para ultrapassar a superfície dos textos sagrados e alcançar seu sentido oculto. Mas bebo dessa fonte, tanto por deleite quanto por um pouco de vício adquirido no exercício da clínica psicológica, que sempre exigiu empenho de tentar entender exatamente o sentido das palavras usadas pelas pessoas atendidas. A gente sabe bem, pelo exercício cotidiano da fala, o quanto as palavras ‘traem’ seu sentido original, por ato deliberado ou involuntário. Com a escrita se dá o mesmo e talvez na leitura se tenha melhores condições de ler e reler uma palavra e sua articulação com outras tantas até que se consiga ultrapassar o significante, explicitado nos grafemas, e alcançar o significado que subjaz.

Quando a gente fala, os silêncios participam ostensivamente da comunicação. Na escrita, por óbvio, é pertinente demais a sugestão de Clarice Lispector quanto à importância de saber ‘ler’ as entrelinhas, que são os ‘silêncios’ do texto. Na mesma e oposta medida em que o que se fala ou escreve pode ou não revelar com transparência o que se quer dizer, aquilo que uma narrativa oculta contém, inevitavelmente, o significado primordial de sua realização. Se as palavras ‘traem’, os ‘silêncios’ dos textos são incapazes de infidelidade.

E é disso que eu quero falar aqui: daquilo que os textos do Novo Testamento nos ocultam e que, ao identificar, nos revelam.

Mas, ainda antes, quero lembrar o quanto somos ou fomos capazes de nos acomodar às práticas educacionais ‘bancárias’ tradicionais, em que o questionamento e a reflexão crítica eram desaconselhados ou mesmo proibidos. Nasci numa família católica, fui educado numa escola católica e vivi (ainda vivo) numa sociedade predominantemente católica: qualquer dissidência à verdade dogmática era (ainda é) relegada à marginalização.

A história dos eventos relatados nos textos ditos ‘sagrados’, que tratam de fatos envolvendo personagens surpreendentes, foi sempre mediada por uma única narrativa possível, totalmente desconectada de seu contexto fático original. Eu lamento tanto que não tenham me oferecido outras narrativas, possivelmente mais reais... Lamento mesmo. Hoje, no entanto, ao meu modo, me apropriei destas possibilidades, parte pelo incentivo de meu pai, que sempre me apontou nesta direção, parte pela minha própria curiosidade. Tardiamente (mas nunca demasiado tarde) reconheci a importância dos Manuscritos do Mar Morto, posto que descobertos na metade do século passado em Qumran, em especial o ‘pesher’ de Habacuc que dá a chave do criptograma bíblico, revelando os códigos (alteração do significado da mensagem pela substituição de palavras, tipo ‘o filho do trovão’ como veremos adiante) adotados pelos judeus essênios como proteção frente aos perseguidores e permitindo o indispensável ajuste das datas mediante sua conversão através dos diversos calendários que vigeram desde a Antiguidade, ambos os assuntos exaustivamente tratados por Barbara Thiering em suas obras.

Todo este abrangente conhecimento me foi suprimido e para tantos outros é ainda um mistério dissimulado e tolhido pela Vulgata, a versão latina da Bíblia usada pela Igreja Católica. O conhecimento destinado aos iniciados com ‘ouvidos para ouvir’, veiculado nos textos apócrifos, nos foi banido e considerado ‘falso’, quando era meramente clandestino, pela força ideológica dos que pretendiam apenas manter sua dominação.

A traição ao sentido original das palavras utilizadas pelos redatores primevos foi deliberada e ideológica, pois continha um (ou mais de um) sentido político do interesse da Roma Imperial.

A história de imperador Constantino I, pontifex maximus ou Sumo Pontífice, revela um adepto fervoroso do Deus Sol Invicto que resolveu usar politicamente a força do cristianismo crescente entre a população para fortalecer seu próprio poder e enfrentar a decadência romana. Em 313, através do ‘Édito de Milão’ ou ‘Édito da Tolerância’, Constantino decretou a liberdade de culto, dando ao cristianismo (e a todas as outras religiões) estatuto de legitimidade, o que na prática acabou com as perseguições sancionadas oficialmente e, sobretudo, anulou o estabelecimento do paganismo como a religião oficial do Império Romano e de seus exércitos.

Quando o último imperador romano, Teodósio I, decretou em 380 o ‘Édito de Tessalônica’ tornando o cristianismo a ‘religião de estado’ exclusiva do Império Romano e abolindo todas as práticas politeístas, teria apenas sacramentado um processo de várias décadas, consolidando a tendência inaugurada por Constantino.

É de Constantino a expressão In hoc signo vinces’ (‘Sob este signo vencerás’) oriunda de uma mítica visão onírica que ele mais tarde atribuiu ao Deus cristão, e foi ele quem convocou o Concílio de Nicéia em 325, que resultou, entre tantas outras barbaridades, em definir Jesus como Deus, tal como reza o ‘Credo Niceno’ que é recitado quase igual ainda hoje: “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da terra. E em Jesus Cristo, seu único Filho Nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria...”.

Volto a isso logo mais (esse período merece ser revisto!): o que conta aqui é ter presente que a partir daí a religião cristã se institucionalizou efetivamente enquanto clero, com o reforço da figura dos bispos, especialmente aqueles dos grandes centros urbanos, como Roma, que ampliaram seu poder controlando as províncias eclesiásticas. A história é longa e, de certa forma confusa, mas o bispado de Roma ousou sobrepor-se aos demais, assumindo a denominação política de ‘Papa’ e alegando ser o herdeiro do apóstolo Pedro, que teria recebido de Jesus a incumbência de propagar a fé cristã entre os povos. Ocidentalizado e burocratizado numa nova articulação política, o cristianismo viu, cada vez mais, se extinguir seu caráter palestino original.

O Império Romano, então a mais extensa e populosa entidade política unificada no Ocidente, abrangia territórios do norte da Europa (desde o oceano Atlântico na costa norte da Grã-Bretanha e toda a Europa continental) ao Norte da África, incluindo a totalidade da área do Mediterrâneo Oriental, que compunha a maior parte do Oriente Médio: a expressão latina ‘imperium sine fine’ (‘império sem fim’) expressa a convicção de que nem tempo e nem espaço o limitavam.

O latim, que originalmente era falado apenas no Lácio, a região da Itália central no entorno de Roma, havia se transformado na língua oficial do Império Romano na configuração geopolítica à época da sua conversão ao cristianismo. Por conta da simbiose entre as duas instituições, foi também a língua adotada oficialmente pela Igreja Católica Romana, exigindo que os textos sagrados fossem traduzidos para o latim.

Quem deu, oficialmente, conta dessa demanda foi São Jerônimo ou Jerônimo de Estridão, doutor da Igreja que, a pedido do então papa Dâmaso, traduziu o Antigo e o Novo Testamento para o latim no século IV d.C. Em parte, utilizou-se de textos em grego da ‘Septuaginta’, em parte de textos avulsos do Novo Testamento em grego, em parte dos textos da ‘Vetus Latina’ (antiga versão do grego da Septuaginta para o latim), e ainda eventualmente recorreu aos textos originais em hebraico e aramaico para uma tradução revisada diretamente para o latim. Sua tradução foi revisada por outros teólogos e o Concílio de Trento definiu uma nova edição em 1546. Novas revisões foram adotadas até a publicação da ‘Nova Vulgata’, também executada por determinação papal, concretizada em 1979.

Ora, nos processos de tradução há sempre o risco de ‘traição’ ao sentido original das palavras, a ponto de se dizer: ‘traduttore, traditore’. Mas este, apesar de real e sério, não é o único problema entre os textos originais e os a que temos acesso hoje.

A versão grega da ‘Bíblia hebraica’ original enfrentou muitas dificuldades, desde a questão das ideias teológicas e exegéticas do judaísmo palestino e alexandrino, até a questão linguística, talvez a mais séria de todas. Acontece que o hebraico é uma língua semítica oriental que se escreve da direita para a esquerda, não tem vogais e  possui um princípio gramatical todo especial. O grego, por sua vez, é uma língua ocidental do grupo das Indo-europeias,  escrita da esquerda para a direita, com uma gramática específica e muito rica em declinações, conjugações e casos gramaticais.

As dificuldades enfrentadas pelos tradutores foram imensas, sem contar os interesses pessoais que existiram e com certeza muita coisa importante ficou perdida nas alterações ocorridas  durantes as traduções.

O processo de tradução do hebraico (e possivelmente de trechos em aramaico) se iniciou no século III a. C., quando uma importante colônia judaica vivia no Egito, especificamente em Alexandria, onde se  falava comumente a língua  grega. Havia necessidade de que o povo judeu possuísse seus textos sagrados (que incluem o Antigo Testamento cristão, embora com outra divisão, mas contêm vários outros livros) em grego. Há discordâncias sobre a veracidade desse fato, mas se aceita que no reinado do rei egípcio Ptolomeu II, a pedido do bibliotecário real,  o sumo sacerdote Eleazar enviou de Jerusalém setenta e dois sábios, seis representantes para cada uma das doze tribos de Israel, a fim de traduzirem a ‘Bíblia hebraica’ para o grego koiné, um dialeto comum (koiné significa ‘comum’) suprarregional, usual entre a maioria da população grega e prevalente também nas regiões mediterrâneas orientais. Assim, essa tradução para o grego recebeu o nome de ‘Septuaginta’ e passou a fazer parte da biblioteca real de Alexandria.

Muitos rabinos e sábios judeus lamentaram fortemente essa tradução, afirmando que a Torá (similar do Pentateuco, ou os cinco livros do Antigo Testamento cristão) não poderia ser jamais acuradamente traduzida. Séculos mais tarde, foi também em meio a muitas dissonâncias que Jerônimo concluiu seu trabalho, apoiado na supremacia papal que reprimiu as divergências doutrinárias e impôs a opinião do bispo de Roma à cristandade.

Ou seja, além das dificuldades de tradução havia a questão política, pela qual o ‘verdadeiro’ sentido das palavras é, enfim, determinado por quem detém o poder: a fim de por termo às divergências de opinião, no momento em que vários concílios discutiam acerca da natureza de Jesus, uns admitindo, outros rejeitando a sua divindade, o papa Dâmaso  confiou a Jerônimo a pretensa missão de redigir uma tradução latina definitiva do Antigo e do Novo testamento que daí em diante seria a única reputada ortodoxa e tornar-se-ia a norma das doutrinas da Igreja.

O próprio Jerônimo sentiu o peso da responsabilidade,  escreveu ao papa um demonstrativo de suas preocupações, referindo-se à sua tradução latina dos evangelhos. Eis o seu desabafo: Da velha obra me obrigais a fazer obra nova. Quereis que, de alguma sorte, me coloque como árbitro entre os exemplares das Escrituras que estão dispersos por todo o mundo, e, como diferem  entre si, que eu distinga os que estão de acordo com o verdadeiro texto grego. É um piedoso trabalho, mas é também um perigoso arrojo, da parte de quem deve ser por todos julgado, julgar ele mesmo os outros, querer mudar a língua de um velho e conduzir à infância o mundo já envelhecido. (...) Qual, de fato, o sábio  e mesmo o ignorante que, desde que tiver nas mãos um exemplar (novo), depois de o haver percorrido apenas uma vez, vendo que se acha em desacordo com o que está habituado a ler, não se ponha imediatamente a clamar que eu sou um sacrílego, um falsário, porque terei tido a audácia de acrescentar, substituir, corrigir alguma coisa nos antigos livros? (...) Um duplo motivo me consola desta acusação. O primeiro é que vós, que sois o soberano pontífice, me ordenais que o faça; o segundo é que a verdade não poderia existir em coisas que divergem, mesmo quando tivessem elas  por si a aprovação dos maus”.

Jerônimo foi sábio e coerente diante da responsabilidade assumida, dando testemunho de alterações que realizou na Bíblia. Santo Agostinho, também Doutor da Igreja e bispo de Hipona, escreveu em 395 ao amigo e contemporâneo Jerônimo demonstrando preocupação com seu trabalho e testemunhando alguma falta de exatidão nas traduções bíblicas: A meu ver, eu preferiria que tu antes nos interpretasse as Escrituras gregas canônicas que são atribuídas aos setenta intérpretes, pois se há dissonância entre o latim das antigas  versões e o grego da Setenta, pode-se ir verificar, mas se há dissonância entre o latim da nova versão e o texto conhecido do público, como dar a prova da sua exatidão?”. Ainda assim, Agostinho teria atenuado: Antes ser repreendido pelos gramáticos do que não ser compreendido pelo povo”.
 
A questão que resta é: os processos de tradução e de disputa política, associados aos interesses de manipulação por parte dos que detêm legítima ou ilegitimamente o poder, sequestram intencionalmente os sentidos originais das palavras utilizadas nos ditos ‘textos sagrados’ que compõem indispensável referência para a compreensão histórica dos personagens ali envolvidos a ponto de nos cegar?

O sentido da vida e da morte


Minha última postagem foi em 19 de julho. Fiquei quase dois meses sem poder acessar o blog da maneira que gosto, podendo deixar fluir o pensamento de acordo com o que o coração decide. Meu coração descompassou com a morte da minha mãe e meus pensamentos tomaram outros rumos.

A morte da minha mãe era esperada, pois ela já tinha completado 96 anos. Só não era esperada tão rapidamente como ocorreu.

No ano passado eu deixei meu apartamento e passei a morar com ela que, apesar de não ser portadora de nenhuma doença que lhe colocasse em risco de morte, apresentava os inevitáveis sinais do envelhecimento e da decadência física. Embora ela ainda dispusesse de autonomia para as atividades cotidianas, não tinha mais condições de morar sozinha e, como não aceitasse a ideia de ter uma acompanhante estranha como cuidadora, a única alternativa razoável possível foi minha mudança e presença.

No início deste ano ela, que já apresentava grande dificuldade visual, especialmente para a leitura, começou a queixar-se de dificuldade para caminhar trechos maiores, cansava facilmente e perdia o fôlego, perdeu o prazer de ir ao supermercado, para o que reservava sagradamente as manhãs de sábado, e almoçar fora, às terças e quintas feiras, num pequeno restaurante localizado no andar térreo em que morava. Até os almoços de domingo, num outro restaurante bem perto da casa da minha irmã, significava um esforço a cada vez mais exigente e, de certa forma, penoso. As idas à igreja foram rareando e por fim foram suspensas.

Sua vida, que sempre fora exuberante e ativa, apesar de ser uma mulher conservadora e pouco audaciosa, foi perdendo seus atrativos e a capacidade de interação, foi ficando limitada ao seu apartamento, à companhia de um radinho de pilhas, a assistir às missas e bênçãos católicas pela televisão. Eventualmente, recebia a visita dos netos e do bisneto de dois anos que mora em Porto Alegre, ou de alguma de suas muitas amigas, com as quais falava regularmente ao telefone.

Coincidiu com a chegada precoce do frio do inverno, ainda em maio, a dificuldade até mesmo para se deslocar dentro do apartamento, para tomar café à mesa da copa-cozinha, para sentar-se no sofá do gabinete, para ir ao banheiro. Cochilava a maior parte do tempo.

A partir de julho as dificuldades se precipitaram a ponto de precisar de ajuda para sair do quarto, doíam-lhe as pernas, as idas ao banheiro já exigiam uma parada intermediária, a respiração foi ficando mais curta, a necessidade de oxigênio exigindo um esforço maior do coração saudável, embora envelhecido. As delicadas sessões de fisioterapia em casa resultavam extenuantes.

Até que não conseguiu mais sair do quarto e, em seguida, não tinha mais forças para sair da cama. A bengala proposta pelo médico nem chegou a ser usada, precisava do concurso de pessoas para andar, passo a passo, vacilante. O uso de fraldas geriátricas foi avassalador para seu narcisismo e sua dignidade.

Qual o sentido de viver assim, sem poder de fato viver? O espectro de vir, muito em breve, a necessitar de hospitalização e encontrar abrigo nessa instituição em que se perde completamente a autonomia lhe parecia aterrador.

Aos poucos foi optando por encerrar o ciclo e encarar a morte que, apesar de sua religiosidade, tanto temia. O corpo doía muito, queixava-se. Não conseguia se alimentar direito, até beber algum líquido lhe era penoso. Os cuidados com o corpo e a aparência foram negligenciados. Faltava-lhe o ar ao menor esforço, virar ou endireitar o corpo na cama passou a ser tarefa árdua. O próprio sono tornou-se fragmentado e deixou de ser bálsamo reparador.

O sentido de sua vida esgotou-se, estancou, ficou no tudo até então vivido, aferrado à longa trajetória, desapareceu do presente e da perspectiva sombria do futuro.

Na madrugada do dia oito de agosto, seu corpo aceitou a opção da alma e desligou o coração. Apesar da ação da equipe de emergência presente, a reanimação não obteve resposta.
 
Numa breve agonia, em sua própria cama, minha mãe fez coincidir o sentido de sua vida com o misterioso sentido da morte.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Significados que o ‘poder’ estabelece


Antes de abordar a questão da codificação de textos sagrados, quero tratar de outro processo de, digamos, ‘codificação’, só que neste caso, uma ‘codificação’ que fala em nome do ‘sentido das palavras’ a partir do olhar dos poderosos.

No meu entendimento, aqui se dá um processo ao reverso: não há um sentido ‘abaixo’ da palavra aparente, mas há a adesão de um novo sentido ‘sobre’ a palavra já existente. Não se cria uma nova palavra: se adiciona à palavra uma nova ‘leitura’ ou significado. Esse processo se chama, quase sempre, ‘dominação’.

O romancista e poeta inglês Charles Lutwidge Dogson, mais conhecido como Lewis Carroll e como autor de ‘Alice no País das Maravilhas’, publicou em 1871 uma continuação desta obra chamada ‘Through the Looking-Glass and What Alice Found There’, traduzida no Brasil como Alice Através do Espelho e O Que Ela Encontrou Por Lá’ ou ainda ‘Alice No País Dos Espelhos. Humpty Dumpty, um dos personagens mais conhecidos dessa obra e que mantem longos diálogos com Alice, é um ovo antropomórfico, filólogo e especialista em questões linguísticas, para quem as palavras significam o que ele quiser. Há um interessante diálogo entre ele e Alice:

Não sei o que você quer dizer com ‘glória’”, Alice disse.
Humpty Dumpty sorriu com desdém: “É óbvio que não sabe... até que eu lhe diga. Eu quis dizer: ‘Há um belo argumento infalível para você’!”.
Mas ‘glória’ não significa ‘um belo argumento infalível’”, objetou Alice.
Quando eu uso uma palavra”, disse Humpty Dumpty com certo desprezo, “ela significa o que eu quiser que ela signifique... Nem mais nem menos”.
A questão é”, disse Alice,se você pode fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes”.
A questão é”, retrucou Humpty Dumpty, “quem é que manda... E eis tudo”.

Toda narrativa contém a ‘assinatura’ subjetiva do narrador, de tal forma que um clássico exemplo disso está na afirmação (corretíssima) de que a história é escrita pelos vitoriosos ou, mais precisamente, pelos ‘sobreviventes’. Às vezes, esse reconhecimento exige extremo esforço para diferenciar o que é história e o que é ‘estória’, apesar de se saber que toda ação narrativa humana, ficcional ou não, vai acontecer num contexto determinado e específico de espaço e tempo. Sabendo que a percepção é seletiva e que o mesmo acontece com a ênfase que será colocada em alguns aspectos da narrativa que relata o percebido, as palavras não são nunca ‘neutras’. O que no fundo retoma a velha questão: afinal, o que é mesmo a ‘verdade’?

Mesmo sem o condão de uma resposta, é indispensável situar qualquer narrativa no seu contexto e tentar identificar as correlações das forças políticas históricas dos envolvidos nas narrativas. O que, seguramente, não parece ser muito fácil.

Um exemplo muito presente (invariavelmente não identificado como tal) está explícito no nascedouro da história conhecida e registrada de nosso país. Desde a nossa infância, a escola informa que o Brasil foi ‘descoberto’ pelos portugueses, posto ser este o registro oficial. A narrativa da dominação é tão sutil que ela nem se constrangeu ao afirmar que quando os portugueses chegaram a estas terras, além de identificar a natureza exuberante, elas já eram habitadas. A história do povo brasileiro, de fato, não começou com a chegada dos europeus, pois teve uma etapa inicial constituída pela vida e atividades dos primeiros ocupantes do território brasileiro, mais adiante denominados ‘índios’. Em acréscimo, a narrativa da dominação ensinada até hoje dá por implícito não contar como ‘gente’ aqueles seres ‘pardos, todos nus,... pintados de preto e vermelho’, como informou o escrivão da frota de Cabral na carta a El-Rei D. Manoel onde relata o achamento desta vossa terra nova’.

Esses dois significados foram aprendidos por todos nós: que a nova terra foi ‘achada’ e quem ali habitava não contava como ‘gente’.

O Brasil, então, foi ‘descoberto’, assim como se ‘acha’ um objeto ao caminhar pelas ruas, talvez uma carteira com dinheiro, talvez até com a foto e o nome do dono, mas como ‘achado não é roubado’ o objeto passa a ser de quem achou, à semelhança do velho ditado lusitano que diz que ‘pão achado não tem dono’? Estas terras eram habitadas, estavam ocupadas: como assim, foram ‘achadas’? De onde a noção de que haviam sido ‘perdidas’?

Segundo Houaiss, uma das acepções de ‘descobrir’ é ‘dar a conhecer (alguma coisa) até então ignorada’. ‘Descobrimento’ é então o ‘ato, processo ou efeito de descobrir (algo), tornando patente o que estava velado ou revelando (alguma coisa) de que não se tinha conhecimento; descoberta’.

Textos acadêmicos costumam designar como a ‘era dos descobrimentos’ ou ‘das grandes navegações’ o período em que os europeus desenvolveram intensa exploração do planeta em busca de novas rotas comerciais. Um período em que “os europeus encontraram e documentaram povos e terras nunca antes vistas”. Nunca antes ‘vistas’ por quem? Se a Europa ‘desconhecesse’, as terras não ‘existiam’? Portugal talvez ignorasse o Brasil, mas já havia habitantes que tinham ‘descoberto’ estas terras antes.

O que Humpty Dumpty chamaria de ‘descobrimento’ eu prefiro chamar de invasão, algo que se define como ‘ato de penetrar em um espaço, sem autorização, ocupando-o pela força’.

Na concepção marxista, o que chamamos de ideologia se caracteriza por um amplo sistema de ideias que encobre a realidade, ocultando ou distorcendo as relações de poder e dominação, bem como as tensões resultantes dessas assimetrias, no sentido de beneficiar os interesses das classes sociais dominantes.

A ideologia nos apresenta o óbvio, o que ‘sempre foi assim’, uma realidade que não pode, não deve, nem tem porque ser mudada. Com a repetição sistemática de uma ideia, ou de uma representação ou de um significado das coisas, será sempre mais difícil perceber os paradigmas do ‘óbvio’ e entender as crenças que estão incrustadas em nossas mentes. Assim se constitui o senso comum, essa compreensão superficial da realidade, que tem dificuldade em ir além da ‘aparência’, gerador do hábito de realizar um comportamento até a tradição que, quando instalada, passa de geração para geração sem razão crítica. Produto da ideologia, o senso comum é seu mais fiel reprodutor, alienando a consciência humana e mascarando a realidade de acordo com os interesses daqueles que dominam a sociedade.

Nessa mesma linha, a filósofa e professora Marilena Chauí define ideologia como ‘um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (ideias e valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer. Ela é, portanto, um corpo explicativo, de representações e práticas (normas, regras e preceitos) de caráter prescritivo, normativo, regulador, cuja função é dar aos membros de uma sociedade dividida em classes uma explicação racional para as diferenças sociais, políticas e culturais, sem atribuir tais diferenças à divisão da sociedade em classes’.

Em outras palavras, é a ideologia que garante a dominação, é ela que perpetua a definição de ‘quem é que manda’, inclusive revestindo as palavras existentes com novas representações ou um novo sentido, ou com o sentido que melhor lhe convém.

Uma situação semelhante a tais circunstâncias ocorreu quando da redação de alguns dos textos sagrados dos judeus exigindo sua codificação e permitindo uma leitura ao senso comum, e outra aos que têm ‘ouvidos para ouvir’.

terça-feira, 16 de julho de 2013

As revelações dos documentos de Qumran




A técnica ‘pesher’ é uma espécie de exegese, uma interpretação no sentido de identificar o conhecimento subjacente em um texto sagrado, cuja redação o protege de eventual profanação. Também aqui o problema das interpretações está associado à possível ausência de neutralidade, da mesma forma que ocorre com o que denominamos ‘verdade’ científica. Diante de um problema, os humanos fazem perguntas, e estas sempre contêm uma resposta provisória às perguntas realizadas. A parcialidade ou falta de distanciamento subjetivo é indissociável da ação humana: a redução de seu impacto depende da nossa capacidade de reconhecer e identificar sua presença.

Diante das possibilidades de uma ‘leitura’ subjetiva, para se entender os ‘pesharim’ ou o conjunto dos comentários que fazem a revelação dos sentidos ocultos, utiliza-se uma diligente e rigorosa metodologia que implica em trabalhar o entendimento particular de uma palavra aplicando-o universalmente sempre que essa mesma palavra aparecer em outros documentos similares. Foi assim que, a partir dos documentos encontrados em Qumran, diversos autores realizaram a leitura dos livros que compõem a Bíblia.

Os ‘rolos’ ou ‘manuscritos’ do Mar Morto são uma coleção de centenas de textos e fragmentos de textos antiquíssimos encontrados casualmente por pastores de cabras em cavernas de Qumran, nas proximidades do Mar Morto, no fim da década de 1940 e durante a década de 1950.

Originalmente, estes textos foram compilados por uma das três principais seitas ou grupos político-religiosos dos judeus, conhecida como a dos ‘essênios’, os quais viveram em Qumran do século II a.C. até aproximadamente o ano 70 d.C. As outras duas seitas eram as dos ‘saduceus’, formado por judeus da estirpe sacerdotal dominante, originalmente descendentes de Zadoque, sumo sacerdote ao tempo do rei David, e os ‘fariseus’, devotos dogmáticos que se dedicavam ao estudo da Torá escrita e oral, intimamente ligados à liderança nas sinagogas, ao culto e às escolas, sendo precursores do judaísmo rabínico. Em meados do século II a.C., resultado de uma derrota política, os essênios retiraram-se para o deserto de Qumran ou deserto da Judéia, vivendo em comunidade e em estrito cumprimento da lei de Moisés e dos Profetas.

Na margem noroeste do Mar Morto, em Israel, a cerca de 10 km ao sul de Jericó e 20 km a leste de Jerusalém, encontra-se um sítio arqueológico hoje formado por um complexo de ruínas conhecido como Khirbet Qumran, ‘ruína da mancha cinzenta’.

Durante a primeira guerra judaico-romana também chamada de ‘Grande Revolta Judaica’, iniciada em 66 d.C. na Judéia e encerrada em 70 d.C., essa comunidade foi obrigada a abandonar Qumran. Seus membros se dispersaram por vários locais, incluindo a fortaleza de Massada, palácio fortificado que havia sido construído pelo rei Herodes, o Grande, no ano 30 a. C. num monte às encostas do Mar Morto e que resultou como último reduto judaico após a destruição de Jerusalém e do Segundo Templo pelos romanos, tomado em 73 d.C.

Os pormenores, obviamente, não são conhecidos, mas crê-se que, durante esta época conturbada, alguns membros da comunidade resolveram esconder os textos sagrados mais preciosos da Lei pela qual se regiam em grutas situadas em penhascos próximos. Provavelmente, nenhum desses homens sobreviveu às investidas romanas e, assim, o segredo da localização dos textos morreu com eles até sua descoberta em 1947, quase 2000 anos depois.

Porções de praticamente toda a Bíblia foram encontradas entre os ‘rolos’ ou ‘manuscritos’ do Mar Morto, além de textos considerados ‘apócrifos’, ou com conteúdo oculto de uso restrito a iniciados, e ainda livros que tratam sobre as regras da própria seita e que permitem um entendimento mais preciso de alguns fatos e rituais.

Aqui é interessante lembrar que o termo ‘apócrifo’ sofreu uma severa alteração política de seu significado, passando a ser aplicado a um texto ou obra que não apresenta autenticidade, ou seja, que é ‘falso’. No entanto, etimologicamente, o termo ‘apócrifo’ vem do latim tardio ‘apocryphus’ ou ‘algo secreto e desaprovado para leitura pública’, por sua vez derivado do grego ‘apokryphos’, que significa ‘coisa escondida para os de fora’, de ‘apo’, ‘para fora’ e ‘kryptein’, ‘escondido’, significando assim ‘algo secreto ou vedado às vistas profanas’.

E nesse sentido original o termo foi aplicado a alguns textos, quando São Jerônimo traduziu a Bíblia do grego antigo e do hebraico para o latim, no final do século IV e início do século V, na versão conhecida como ‘Vulgata’, forma latina abreviada de ‘vulgata editio’ ou ‘vulgata versio’ ou ‘vulgata lectio’, respectivamente ‘edição, tradução ou leitura de divulgação popular ou para o povo’ - a versão mais difundida (ou mais aceita como autêntica). Para ‘não iniciados’, alguns textos deveriam ser vedados, e assim foram subtraídos com tal denominação. Ao longo do tempo e por variadas motivações políticas da elite da Igreja, tais textos passaram sucessivamente a ser considerados ‘falsos’, e nessa condição permaneceram excluídos.

Assim a ‘Vulgata’ foi a primeira (e por séculos a única) versão da Bíblia disponível, na qual São Jerônimo verteu o Velho Testamento diretamente do hebraico e não da tradução grega conhecida como Septuaginta, e para o Novo Testamento, revisou e selecionou textos. Sua versão original definitiva foi ratificada no Concílio de Trento, em 1546, e sofreu uma revisão em 1979, sob o papado de João Paulo II, sendo denominada ‘Nova Vulgata’, atual Bíblia oficial da Igreja.

Agora nos cabe voltar à noção ‘pesher’ e porque falamos disto aqui: os Manuscritos do Mar Morto são, com certeza, a versão mais antiga do texto bíblico, datando de muitos anos antes do que o texto original da Bíblia Hebraica usada pelos judeus ainda hoje. Por serem tão preciosos, atualmente estão guardados no Santuário do Livro do Museu de Israel, em Jerusalém. Sua descoberta e decifração permitiu determinar algumas das regras seguidas pela comunidade essênia de Qumran nos ‘pesharim’, uma vez que alguns rolos trazem os textos e sua interpretação, revelando ao mesmo tempo o sentido literal aparente e o significado escondido nos mesmos. Resulta que alguns trabalhos revelam uma nova leitura dos textos sagrados, permitindo e ensejando uma compreensão sobre os fatos narrados que leva o leitor, obrigatoriamente, num outro sentido. Tal como em seguida veremos.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Entrelinhas II



                            “O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas”.

                                                   Clarice Lispector, ‘Água Viva’, 1973

A importância dos hieróglifos


 
Hieróglifos são cada um dos sinais da escrita de antigas civilizações, tais como os egípcios, os hititas e os mais, ou como se denomina coloquialmente qualquer escrita de difícil interpretação ou que seja enigmática. É um termo originário de duas palavras gregas: ‘hierós’, sagrado, ‘glýphein’, escrita. Ou seja, apenas um grupo restrito e cauteloso de pessoas, formado por sacerdotes, membros da realeza, detentores de altos cargos e escribas conheciam a arte de ler e escrever esses sinais sagrados e, assim, mantinham um uso restrito das informações registradas, mesmo que estivessem expostas ao olhar de qualquer um, e protegiam seu significado da apropriação por quem não fosse um fiel depositário.

Diante das recentes revelações de Edward Snowden as mensagens herméticas voltaram à cena. Snowden é o estadunidense administrador de sistemas e ex-agente da CIA que denunciou ao mundo a espionagem realizada pelo governo americano sobre as comunicações e tráfego de informações, fazendo o monitoramento de mídias eletrônicas  e a vigilância das comunicações em tempo real entre civis, quaisquer indivíduos, em âmbito planetário. Vivemos tempos em que assume ares de realidade o personagem ‘Big Brother’ profetizado no livro ‘1984’, do escritor e jornalista inglês George Orwell, publicado em 1949.

Além da denúncia em si, interessante notar que Snowden, respondendo a um jornalista por que havia resolvido por a ‘boca no trombone’, disse que, ao lado dos problemas de consciência que vivenciava, como agente e analista de espionagem tinha acesso a “informações verdadeiras” (true information), “antes que elas fossem transformadas em propaganda pela mídia”. Ou seja, uma parte do esforço da Agência de Segurança dos Estados Unidos (NSA – National Security Agency) se concentra em formar a opinião pública, e para tanto a cooperação da mídia é fundamental, como já nos revelou o caso da ‘guerra do Iraque’. Voltaremos a esse aspecto mais tarde.

Numa sociedade permanentemente vigida, na opinião do jornalista australiano Julian Assenge, fundador do WikiLeaks (organização sem fins lucrativos que publica notícias e informações sigilosas ou secretas ‘vazadas’ ou denunciadas a partir de fontes anônimas), a criptografia é a arma atual de quem quer utilizar o ciberespaço com privacidade. Aliás, é uma grande aliada de todos os que querem manter informações sob sigilo desde tempos muito antigos.

Embora o estudo da criptografia, enquanto ramo especializado da teoria da informação, possa compreender bem mais do que apenas cifragem e decifragem de mensagens e textos, envolvendo contribuições de outros campos do conhecimento e da matemática, seu aspecto de codificação da informação é central.

A palavra criptografia deriva do grego ‘kryptós’, escondido, e ‘gráphein’, escrita, significando o estudo dos princípios e técnicas pelas quais a informação pode ser transformada da sua forma original para outra ilegível, de forma que possa ser conhecida apenas por seu destinatário, na condição de detentor da ‘chave secreta’, o que a torna difícil de ser lida por alguém não autorizado. Assim sendo, só o receptor da mensagem poderia ler a informação com facilidade. Uma informação não cifrada que é enviada de uma pessoa ou organização para outra é chamada de ‘texto claro’ ou ‘texto simples’ (plain text). Cifragem é o processo de conversão de um texto claro para um código cifrado e decifragem é o processo contrário, de recuperar o texto original a partir de um texto cifrado.

Exemplos de cifragem não faltam, ontem e hoje. Antigamente, embora fosse também usada em mensagens amorosas, para que relações privadas sigilosas não fossem descobertas por terceiros, a cifragem era utilizada prioritariamente na troca de mensagens em assuntos ligados às guerras.

Tem-se que o primeiro uso documentado da criptografia teria ocorrido em torno de 1.900 a.C., no Egito, quando um escriba usou hieróglifos fora do padrão numa inscrição. Por sua vez, entre 600 a.C. e 500 a.C., os hebreus utilizaram uma cifra (ou criptograma) de substituição simples monoalfabética e monogrâmica na qual os caracteres são trocados um a um por outros, e com ela teriam escrito o Livro de Jeremias. Igualmente exemplo de substituição simples, o chamado ‘Codificador de Júlio César’ ou ‘Criptograma de César’ fazia a substituição das letras avançando três posições no alfabeto.

Com o tempo as cifras se sofisticaram utilizando sequências de várias cifras com diferentes valores de deslocamento alfanumérico. Na Idade Média, a civilização árabe-islâmica contribuiu muito para os processos criptográficos, sobretudo a criptoanálise ou a procura de padrões que identificassem mensagens camufladas por códigos. Na Idade Moderna, além da troca periódica de chaves, a sofisticação incluiu a criação de uma máquina elétrico-mecânica. Aparentando ser uma máquina de escrever, quando o usuário pressionava uma tecla, um rotor avançava uma posição, provocando a rotação de outros rotores, sendo que esse movimento gerava diferentes combinações de encriptação dificultando a decodificação, uma vez que, para isso, seria necessário ter outra máquina dessas e saber qual a chave utilizada na codificação. Na atualidade, além da diversidade dos canais de propagação de mensagens criptografadas, surgiram diversos tipos de criptografia com utilização de múltiplas chaves.

Durante muito tempo, o termo referiu-se exclusivamente à cifragem, o processo de converter uma informação comum (texto claro, plain text) em algo não inteligível ou texto cifrado. A decifragem é a tarefa contrária ou converter uma informação não inteligível em texto claro. No uso coloquial, o termo ‘código’ é usado para referir-se a qualquer método de cifragem ou similar. Em criptografia, ‘código’ tem um significado mais específico, refere-se à substituição de uma unidade significativa, ou o significado de uma palavra ou frase, pelo substituto equivalente. A rigor, ‘códigos’ não são mais usados na criptografia moderna, visto que o uso de cifras ou criptogramas tornou-se mais prático e seguro, além de melhor adaptado aos computadores.

Nos dias atuais, onde grande parte dos dados é digital, o processo de criptografia é basicamente feito por algoritmos que fazem o embaralhamento dos bits (dígitos binários, ‘binary digit’ em inglês) desses dados a partir de uma determinada chave ou par de chaves, dependendo do sistema criptográfico escolhido.

O criptograma é composto de um ou mais algoritmos que cifram e decifram um texto. A operação do algoritmo costuma ter como parâmetro uma chave criptográfica conhecida apenas pelos comunicantes. O criptograma pode ser conhecido, mas não a chave: assim como se entende o mecanismo de uma fechadura comum, mas não se pode abrir a porta sem uma chave real.

Em linguagem não técnica, um código secreto é o mesmo que uma cifra ou criptograma. Porém, na linguagem especializada os dois conceitos são distintos. Um código funciona manipulando o significado, normalmente pela substituição simples de palavras ou frases. Uma cifra, ao contrário, trabalha na representação da mensagem (letras, grupos de letras ou, atualmente, bits). Por exemplo, um código seria substituir a frase "Atacar imediatamente" por "Mickey Mouse". Uma cifra seria substituir essa frase por "sysvst ozrfosyszrmyr".

Basicamente, códigos não envolvem chaves criptográficas, mas tabelas de substituição ou mecanismos semelhantes. Códigos podem ser então encarados como cifras cuja chave é o próprio conhecimento do mecanismo de funcionamento da cifra.

Uma chave criptográfica é um valor secreto que modifica um algoritmo de encriptação ou cifragem. Um algoritmo é uma sequência de instruções bem definidas e não ambíguas a serem executadas num período de tempo finito, podendo ser ilustrado como uma receita culinária, embora em geral seja mais complexo, podendo repetir passos ou necessitar de decisões até que a tarefa seja completada.

Curiosidade: a palavra ‘algoritmo’, segundo a noção predominante, derivaria de Al-Khwarizm, nome reduzido de um matemático, astrônomo, astrólogo e geógrafo persa do século IX, chamado Abū ‘Abd Allāh Muhammad ibn Mūsā al-Khwārizmī. Seu nome deriva da sua cidade natal, Khwarizm, hoje chamada Khiva, província do atual Uzbequistão.

Tal como os cuidados adotados pelos egípcios, hititas e maias com seus textos sagrados, alguns judeus capazes de aplicar certas técnicas especiais de cifragem, preservaram informações importantes da história de suas lideranças políticas e religiosas, em especial por estarem em disputas internas e por estarem sob o jugo romano. Embora se lute inexoravelmente por um Estado laico e contra as teocracias, religião e política são inseparáveis na medida em que em ambas há sempre uma disputa articulada por espaços de poder, explícitos ou subjacentes.

Por isso e neste contexto, cabe abordar a técnica pesher’ com mais detalhe e sua aplicação aos Evangelhos.

Entrelinhas I



 Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas.”

                                                Clarice Lispector, ‘Para não esquecer’, 1978