Já que fiquei esse tempo todo longe do blog, devido à morte de minha mãe, sinto falta de, antes de retomar as postagens, fazer um alinhavo das ideias colocadas aqui a partir de seu início. Preciso retomar o nexo entre elas para voltar a falar da mesma coisa sem me repetir (muito).
O
principal já foi dito no texto inaugural: tenho imenso prazer em lidar com as
palavras e ‘capturar’ seu sentido, seja
na leitura, seja na escrita. Parafraseando uma amiga, às vezes é preciso,
inclusive, ‘torturar’ as palavras até extrair seu sentido original. Quer dizer,
apreender seu sentido exige esforço.
Não
chego ao exagero de me pretender um sábio judeu e desenvolver o procedimento ‘pesher’ utilizado para ultrapassar a
superfície dos textos sagrados e alcançar seu sentido oculto. Mas bebo dessa
fonte, tanto por deleite quanto por um pouco de vício adquirido no exercício da
clínica psicológica, que sempre exigiu empenho de tentar entender exatamente o
sentido das palavras usadas pelas pessoas atendidas. A gente sabe bem, pelo
exercício cotidiano da fala, o quanto as palavras ‘traem’ seu sentido original,
por ato deliberado ou involuntário. Com a escrita se dá o mesmo e talvez na
leitura se tenha melhores condições de ler e reler uma palavra e sua
articulação com outras tantas até que se consiga ultrapassar o significante,
explicitado nos grafemas, e alcançar o significado que subjaz.
Quando a gente fala, os
silêncios participam ostensivamente da comunicação. Na escrita, por óbvio, é
pertinente demais a sugestão de Clarice Lispector quanto à importância de saber
‘ler’ as entrelinhas, que são os ‘silêncios’ do texto. Na mesma e oposta medida
em que o que se fala ou escreve pode ou não revelar com transparência o que se
quer dizer, aquilo que uma narrativa oculta contém, inevitavelmente, o
significado primordial de sua realização. Se as palavras ‘traem’, os
‘silêncios’ dos textos são incapazes de infidelidade.
E é disso que eu quero falar
aqui: daquilo que os textos do Novo Testamento nos ocultam e que, ao
identificar, nos revelam.
Mas, ainda antes, quero
lembrar o quanto somos ou fomos capazes de nos acomodar às práticas
educacionais ‘bancárias’ tradicionais, em que o questionamento e a reflexão
crítica eram desaconselhados ou mesmo proibidos. Nasci numa família católica,
fui educado numa escola católica e vivi (ainda vivo) numa sociedade
predominantemente católica: qualquer dissidência à verdade dogmática era (ainda
é) relegada à marginalização.
A história dos eventos relatados
nos textos ditos ‘sagrados’, que tratam de fatos envolvendo personagens
surpreendentes, foi sempre mediada por uma única narrativa possível, totalmente
desconectada de seu contexto fático original. Eu lamento tanto que não tenham
me oferecido outras narrativas, possivelmente mais reais... Lamento mesmo. Hoje,
no entanto, ao meu modo, me apropriei destas possibilidades, parte pelo
incentivo de meu pai, que sempre me apontou nesta direção, parte pela minha própria
curiosidade. Tardiamente (mas nunca demasiado tarde) reconheci a importância
dos Manuscritos do Mar Morto, posto que descobertos na metade do século passado
em Qumran, em especial o ‘pesher’ de Habacuc que dá a chave do
criptograma bíblico, revelando os códigos (alteração do significado da mensagem
pela substituição de palavras, tipo ‘o filho do trovão’ como veremos adiante)
adotados pelos judeus essênios como proteção frente aos perseguidores e permitindo
o indispensável ajuste das datas mediante sua conversão através dos diversos
calendários que vigeram desde a Antiguidade, ambos os assuntos exaustivamente
tratados por Barbara Thiering em suas obras.
Todo
este abrangente conhecimento me foi suprimido e para tantos outros é ainda um
mistério dissimulado e tolhido pela Vulgata, a versão latina da Bíblia usada
pela Igreja Católica. O conhecimento destinado aos iniciados com ‘ouvidos para ouvir’, veiculado nos textos apócrifos, nos
foi banido e considerado ‘falso’, quando era meramente clandestino, pela força
ideológica dos que pretendiam apenas manter sua dominação.
A traição ao
sentido original das palavras utilizadas pelos redatores primevos foi
deliberada e ideológica, pois continha um (ou mais de um) sentido político do
interesse da Roma Imperial.
A história de
imperador Constantino I, pontifex maximus ou Sumo Pontífice, revela
um adepto fervoroso do Deus Sol Invicto que resolveu
usar politicamente a força do cristianismo crescente entre a população para
fortalecer seu próprio poder e enfrentar a decadência romana. Em 313, através
do ‘Édito de Milão’ ou ‘Édito da Tolerância’, Constantino decretou a liberdade
de culto, dando ao cristianismo (e a todas as outras religiões) estatuto de
legitimidade, o que na prática acabou com as perseguições sancionadas
oficialmente e, sobretudo, anulou o estabelecimento do paganismo como a
religião oficial do Império Romano e de seus exércitos.
Quando o último imperador romano, Teodósio I, decretou
em 380 o ‘Édito de Tessalônica’ tornando o cristianismo a ‘religião de estado’
exclusiva do Império Romano e abolindo todas as práticas politeístas, teria
apenas sacramentado um processo de várias décadas, consolidando a tendência
inaugurada por Constantino.
É de Constantino a expressão ‘In
hoc signo vinces’ (‘Sob este signo vencerás’) oriunda de uma mítica
visão onírica que ele mais tarde atribuiu ao Deus cristão, e foi ele quem convocou o
Concílio de Nicéia em 325, que resultou, entre tantas outras barbaridades, em
definir Jesus como Deus, tal como reza o ‘Credo Niceno’ que é recitado quase
igual ainda hoje: “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, criador do
céu e da terra. E em Jesus Cristo, seu único Filho Nosso Senhor, que foi
concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria...”.
Volto a isso logo mais
(esse período merece ser revisto!): o que conta aqui é ter presente que a
partir daí a religião cristã se institucionalizou efetivamente enquanto clero,
com o reforço da figura dos bispos, especialmente aqueles dos grandes centros urbanos, como Roma, que ampliaram
seu poder controlando as províncias eclesiásticas. A história é longa e, de
certa forma confusa, mas o bispado de Roma ousou sobrepor-se aos demais, assumindo
a denominação política de ‘Papa’ e alegando ser o herdeiro do apóstolo Pedro,
que teria recebido de Jesus a incumbência de propagar a fé cristã entre os
povos. Ocidentalizado e burocratizado numa nova articulação política, o
cristianismo viu, cada vez mais, se extinguir seu caráter palestino original.
O Império Romano, então a mais extensa e populosa
entidade política unificada no Ocidente, abrangia territórios do norte da
Europa (desde o oceano Atlântico na costa norte da Grã-Bretanha e toda a Europa
continental) ao Norte da África, incluindo a totalidade da área do Mediterrâneo
Oriental, que compunha a maior parte do Oriente Médio: a expressão latina ‘imperium
sine fine’ (‘império sem fim’) expressa a convicção de que nem tempo e nem
espaço o limitavam.
O latim, que originalmente era falado apenas no Lácio,
a região da Itália central no entorno de Roma, havia se transformado na língua
oficial do Império Romano na configuração geopolítica à época da sua conversão
ao cristianismo. Por conta da simbiose entre as duas instituições, foi também a
língua adotada oficialmente pela Igreja Católica Romana, exigindo que os textos
sagrados fossem traduzidos para o latim.
Quem deu, oficialmente, conta dessa demanda foi São
Jerônimo ou Jerônimo de Estridão, doutor da Igreja que, a pedido do então papa
Dâmaso, traduziu o Antigo e o Novo Testamento para o latim no século IV d.C. Em
parte, utilizou-se de textos em grego da ‘Septuaginta’, em parte de textos
avulsos do Novo Testamento em grego, em parte dos textos da ‘Vetus Latina’
(antiga versão do grego da Septuaginta para o latim), e ainda eventualmente
recorreu aos textos originais em hebraico e aramaico para uma tradução revisada
diretamente para o latim. Sua tradução foi revisada por outros teólogos e o
Concílio de Trento definiu uma nova edição em 1546. Novas revisões foram
adotadas até a publicação da ‘Nova Vulgata’, também
executada por determinação papal, concretizada em 1979.
Ora, nos processos de tradução há sempre o risco de
‘traição’ ao sentido original das palavras, a ponto de se dizer: ‘traduttore,
traditore’. Mas este, apesar de real e sério, não é o único problema
entre os textos originais e os a que temos acesso hoje.
A versão
grega da ‘Bíblia hebraica’ original enfrentou muitas dificuldades, desde a
questão das ideias teológicas e exegéticas do judaísmo palestino e alexandrino,
até a questão linguística, talvez a mais séria de todas. Acontece que o
hebraico é uma língua semítica oriental que se escreve da direita para a
esquerda, não tem vogais e possui um princípio gramatical todo especial. O
grego, por sua vez, é uma língua ocidental do grupo das Indo-europeias, escrita
da esquerda para a direita, com uma gramática específica e muito rica em
declinações, conjugações e casos gramaticais.
As
dificuldades enfrentadas pelos tradutores foram imensas, sem contar os
interesses pessoais que existiram e com certeza muita coisa importante ficou
perdida nas alterações ocorridas durantes as traduções.
O processo
de tradução do hebraico (e possivelmente de trechos em aramaico) se iniciou no
século III a. C., quando uma importante colônia judaica vivia no Egito,
especificamente em Alexandria, onde se falava comumente a língua
grega. Havia necessidade de que o povo judeu possuísse seus textos sagrados (que
incluem o Antigo Testamento cristão, embora com outra divisão, mas contêm
vários outros livros) em grego. Há discordâncias sobre a veracidade desse fato,
mas se aceita que no reinado do rei egípcio Ptolomeu II, a pedido do
bibliotecário real, o sumo sacerdote Eleazar enviou de Jerusalém setenta
e dois sábios, seis representantes para cada uma das doze tribos de Israel, a
fim de traduzirem a ‘Bíblia hebraica’ para o grego koiné, um dialeto comum (koiné
significa ‘comum’) suprarregional, usual entre a maioria da população grega e
prevalente também nas regiões mediterrâneas orientais. Assim, essa tradução para o
grego recebeu o nome de ‘Septuaginta’ e passou a fazer parte da biblioteca real
de Alexandria.
Muitos
rabinos e sábios judeus lamentaram fortemente essa tradução, afirmando que a
Torá (similar do Pentateuco, ou os cinco livros do Antigo Testamento cristão)
não poderia ser jamais acuradamente traduzida. Séculos mais tarde, foi também
em meio a muitas dissonâncias que Jerônimo concluiu seu trabalho, apoiado na
supremacia papal que reprimiu as divergências doutrinárias e impôs a opinião do
bispo de Roma à cristandade.
Ou seja,
além das dificuldades de tradução havia a questão política, pela qual o
‘verdadeiro’ sentido das palavras é, enfim, determinado por quem detém o poder:
a fim de por termo às divergências de
opinião, no momento em que vários concílios discutiam acerca da natureza de
Jesus, uns admitindo, outros rejeitando a sua divindade, o papa Dâmaso
confiou a Jerônimo a pretensa missão de redigir uma tradução latina definitiva do
Antigo e do Novo testamento que daí em diante seria a única reputada ortodoxa e
tornar-se-ia a norma das doutrinas da Igreja.
O próprio
Jerônimo sentiu o peso da responsabilidade, escreveu ao papa um
demonstrativo de suas preocupações, referindo-se à sua tradução latina dos
evangelhos. Eis o seu desabafo: “Da
velha obra me obrigais a fazer obra nova. Quereis que, de alguma sorte, me
coloque como árbitro entre os exemplares das Escrituras que estão dispersos por
todo o mundo, e, como diferem entre si, que eu distinga os que estão de
acordo com o verdadeiro texto grego. É um piedoso trabalho, mas é também um
perigoso arrojo, da parte de quem deve ser por todos julgado, julgar ele mesmo
os outros, querer mudar a língua de um velho e conduzir à infância o mundo já
envelhecido. (...) Qual, de fato, o sábio e mesmo o ignorante que, desde
que tiver nas mãos um exemplar (novo), depois de o haver percorrido apenas uma
vez, vendo que se acha em desacordo com o que está habituado a ler, não se
ponha imediatamente a clamar que eu sou um sacrílego, um falsário, porque terei
tido a audácia de acrescentar, substituir, corrigir alguma coisa nos antigos
livros? (...) Um duplo motivo me consola desta acusação. O primeiro é que vós,
que sois o soberano pontífice, me ordenais que o faça; o segundo é que a
verdade não poderia existir em coisas que divergem, mesmo quando tivessem
elas por si a aprovação dos maus”.
Jerônimo foi sábio e coerente
diante da responsabilidade assumida, dando testemunho de alterações que
realizou na Bíblia. Santo Agostinho, também Doutor da Igreja e bispo de Hipona,
escreveu em 395 ao amigo e contemporâneo Jerônimo demonstrando preocupação
com seu trabalho e testemunhando alguma falta de exatidão nas traduções
bíblicas: “A meu ver, eu preferiria
que tu antes nos interpretasse as Escrituras gregas canônicas que são
atribuídas aos setenta intérpretes, pois se há dissonância entre o
latim das antigas versões e o grego da Setenta, pode-se ir
verificar, mas se há dissonância entre o latim da nova versão e o texto conhecido
do público, como dar a prova da sua exatidão?”. Ainda assim, Agostinho teria atenuado: “Antes
ser repreendido pelos gramáticos do que não ser compreendido pelo povo”.

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